Vincent - Um solo de amor

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Missão: África

 AJUDA HUMANITÁRIA

Grupo de 17 voluntários de Belo Horizonte abre mão das férias e embarca hoje com destino a Guiné-Bissau para ajudar no tratamento odontológico de centenas de crianças

Por Jefferson da Fonseca Coutinho
Foto: Jair Amaral/EM/D.A Press

Quando 2012 for passado recente nos céus de Confins, um grupo de 17 voluntários mineiros já vai estar embarcado rumo à Guiné-Bissau. O voo rumo à costa ocidental da África está marcado para 23h55 de hoje. Os missionários - homens e mulheres entre 20 e 40 anos - estão abrindo mão da família e das férias de janeiro para levar tratamento odontológico, carinho e esperança para centenas de crianças. São 20 dias de missão, com previsão de 60 atendimentos diários, em pontos dos mais críticos da região, a cinco horas de canoa no Arquipélago dos Bijagós. Todos os agentes sociais, marinheiros de primeira viagem em território internacional, tomado por epidemias e solapado pela guerra civil. Em Bissau, meninos de 8, 9 anos, órfãos, chefiam famílias e muitos professores são analfabetos.

Mãe da Emanuele, de 12, e de Rubia, de 9, Mônica Alessandra Dias Rocha, de 40, acredita que o exemplo de ação humanitária vai ser importante para o futuro das filhas. A dentista está disposta a encarar a saudade da família e levar a experiência na área de saúde pela cura dos mais necessitados. Mônica prevê demanda mais curativa do que pela prevenção, já que a maior parte da população vive em apuros também com os dentes. “O que mais me chama a atenção em Guiné- Bissau é a precariedade e a desordem política. Esse contraste, essa pobreza, é consequência do comportamento humano”, lamenta. Para a missionária, a doação é uma pequena contribuição capaz de diminuir diferenças. “Se cada um fizer a sua parte, podemos ajudar a mudar a realidade do outro”.

Pacelli Henrique, de 23, fala em caráter e atitude. Mostra-se disposto a fazer o que for preciso pelas crianças de Bissau. Para o graduado em gestão de negócios, há uma distância enorme entre o muito que temos no Brasil e a escassez do país africano. “Estou certo de que essa experiência vai impactar muito em cada um de nós”, diz. A babá Rosemeire Gomes, de 39, está deixando o casal de filhos - Poliana, de 15, e Felipe, de 21 - para oferecer carinho aos pequenos guineenses. “É um sentimento de mãe. Quero dar carinho para essas crianças. Cuidar um pouco delas, levando a palavra do Senhor”, sorri, terna.

“Fé é um passo muito importante contra toda a precariedade que abate o povo de lá”, defende Claudinea Conceição, de 34. Para a missionária, além de problemas com falta de comida, saúde e educação, há ainda a ausência de esperança. Marido e mulher, Douglas Rafael, de 32, e Thayse Porto Arantes Rafael, de 28, embarcam cheios de expectativa. Douglas, advogado, prega que a esperança pode converter dificuldades. Thayse, olhos brilhantes, não esconde a alegria missionária ao lado do marido. “Estou realizando um sonho de muito tempo. Um sonho que Deus colocou no meu coração desde os 16 anos”, emociona-se. A estudante diz-se preparada para lidar com as dificuldades da missão, dos problemas e cuidados que todo o grupo vai enfrentar com alimentação e para evitar as doenças tão comuns que abatem os guineenses. Na região, as doenças graves mais frequentes são as amebíases, gastroenterites, infecções respiratórias, nemátodos intestinais, salmonelloses, shigelloses, giardia, tuberculose, febre tifóide, o paludismo e a SIDA.


Ação e transformação

“Com o coração acelerado”, diz-se Wilson Venâncio, de 31. “Jesus foi um agente de formação e de transformação. A gente pensa em ser assim também”, sorri. Missionário há 9 anos, com experiência entre os pequenos mais carentes da Pedreira Prado Lopes, na Região Noroeste de Belo Horizonte, Wilson tem mensagem na ponta da língua para os meninos pobres de lá. “Assim como um dia eu não tive nada, não era nada, o mesmo Jesus que me deu condições pode transformar a realidade deles também”. O designer gráfico, firme na fé e na fala, mostra notável disposição para a missão.

A enfermeira Clélia Regina da Silva Macedo, de 37, acostumada com as situações mais críticas na saúde, está apreensiva com o que vai encontrar em Bissau. “Ao mesmo tempo, estou muito feliz em poder fazer algo pelas pessoas de lá”, suspira. Das passagens marcantes que leva no coração está a cura de um paciente, de 59 anos, do Hospital de Ribeirão das Neves, na Região Metropolitana, no fim da vida, para muitos. Segundo Clélia, quando ninguém acreditava em recuperação, ele, cheio de fé, conseguiu deixar o hospital. “Encontramo-nos na rua, tempos depois e ele me disse: ‘Tá vendo como Deus pode mudar a situação do homem?’. Isso fortaleceu ainda mais a minha fé”, diz.

Ludmila Rosa Evangelista vê na ação humanitária um propósito de Deus. Há 10 anos em trabalhos sociais por meio da cultura - dança e música -, a missionária já percorreu o interior de Minas pelo resgate de meninos de rua. “Sinto-me preparada. Meu coração está disposto, prevendo que algo muito tremendo vai acontecer e marcar as nossas vidas”, diz. O biólogo Vitor Hugo Simões Miranda, de 25, agente social desde 2008, espera conquistar a amizade e a confiança dos guineenses. “Esperamos tocar o coração deles por meio do nosso caráter, da nossa atitude de amor”. Estudioso da saúde, conhecedor das doenças de Bissau, Vitor reconhece os desafios que o grupo tem pela frente. Contudo, não teme. “Deus é nosso escudo”.

No auditório principal da Igreja Batista da Lagoinha, o grupo reunido acerta os últimos detalhes da missão. Gilvane Viviane de Moraes Xavier, de 37, e a pequena Luiza, de 4, não vão para Guiné-Bissau. Mas são elas esteio e fonte de inspiração para Rodrigo Xavier, pastor e líder dos 17 sujeitos de fé e bom coração. Gilvane, dentista, ajuda do plano de ação da companheira de profissão Mônica Rocha, já de malas e equipamentos prontos para a África. Rodrigo, como o bom pastor que protege suas ovelhas, tem o desafio ainda maior de levar e trazer o grupo em segurança. “Muitos me perguntam porque não vamos para o Vale do Jequitinhonha. Vamos lá também. No momento, queremos ir onde ninguém quer ir”, justifica.

Rodrigo conta que a missão humanitária da igreja em Guiné Bissau, coordenada por Gustavo Bessa, é um trabalho permanente que já existe há quatro anos. O pastor explica que a missão é custeada pelos próprios voluntários, dispostos, especialmente, a levar carinho e esperança aos mais necessitados. Cada um dos 17 missionários que seguem para Bissau na virada do ano está desembolsando R$ 5,5 mil para custos de transporte e alimentação. Há uma casa de apoio em Bissau. De lá, o grupo segue de canoa para as ilhas mais distantes do continente. Para o pastor Rodrigo, crescido longe dos pais desde bebê, cuidar do outro é dar olhos ao coração. Gilvane e Luiza, mulher e filha, já são retrato de orgulho e saudade.

Saiba mais
Português e crioulo guineense


República da Guiné-Bissau é um país da costa ocidental de África. Além do território continental, integra oitenta ilhas que constituem o Arquipélago dos Bijagós - descolado do continente pelos canais do Rio Geba, de Pedro Álvares, de Bolama e de Canhabaque. Foi colônia de Portugal a partir do século XV. Em 1974, Guiné-Bissau foi a primeira colônia portuguesa no continente africano a ter sua independência reconhecida por Portugal. Faz parte da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), das Nações Unidas, dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP) e da União Africana. A maioria da população vive da agricultura. Cerca de 45% dos habitantes praticam o Islão e há uma minoria de cristãos. As línguas mais faladas são o fula e o mandinga - entre as populações concentradas no Norte e no Nordeste. Outros grupos étnicos importantes são os balantas e os papéis, na costa meridional, e os manjacos e os mancanhas, nas regiões costeiras do Centro e do Norte. O crioulo guineense, derivado do português, é a língua veicular interétnica.

Estado de Minas - Portal Uai - 31/12/12

3 comentários:

Anônimo disse...

Jeff, linda matéria. Adorei. Fiquei emocionada ao ler. Parabéns pelo texto com tanta sensibilidade. Abração, Francis Rose.

Anônimo disse...

Jeff, obrigada pelo carinho com que você descreveu a matéria! fiquei muito emocionada!valeu!
Gilvane Xavier

JFC disse...

Francis, Gilvane, iniciativas assim precisam rodar o mundo. Privilégio o meu colaborar, ainda que de maneira bem modesta, com grupo de tanto valor. No fundo, sinceramente, a minha vontade era de estar junto, em campo, em Bissau. Meu carinho! Jeff