Vincent - Um solo de amor

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

O ladrão Antanael e a mula Rouge

Na falta de juízo e noção do feito, o pedreiro Antanael, de 21 anos, catou a mula Rouge em fazendinha de Montes Claros para fugir de serviço sujo na casa do doutor Lautrec, na Região Norte de Minas. O sujeito, ladrão de ocasião, nem é de todo mal. Falta-lhe apenas o tempero da inteligência e do bom senso, que costuma fazer bem ao bom cidadão. Também estava carente de prata, já que, à toa, Antanael não descolava troco honesto há mais de mês. Levado pela famigerada má influência, não deu ouvidos aos conselhos diários da boa mãe, com quem morava: “Olhe com quem tu anda, meu filho. Olhe bem com quem tu anda!”. Dona Amaralina, linha-dura e fervorosa, sabia o que estava dizendo. Tanto que bastou o filho se meter com o bando do Baita para os bons modos ganharem o rumo do xilindró.

O encontro com os maus elementos, claro, não foi na escola – lugar de toda a gente de futuro. Foi na rua, tarde da noite, nos becos da falta do que fazer da inutilidade humana. O Baita, tipo agigantado, na companhia do Meiometro, chegou no pedreiro, maroto, na maciota:

– Aê, fi! Tô te fragando… tá osso, hein!?
– Mais ou menos.
– Tem um servicinho mole aí… quer?
– Que tipo?
– Do tipo sem violência. Pulo do gato. Fraga?

Antanael não era lá tão inocente. Entendeu logo a proposta e topou ficar encarregado em vigiar a casa do Dr. Lautrec, enquanto Baita e Meiometro faziam a “limpeza”. A bandidagem já sabia que o doutor estava em viagem com a família. Depois, era só dividir o lucro. “Fácil”, pensou o pedreiro. Foram na caminhonetinha velha do Meiometro. E, conforme combinaram, o plano seguiu. O gigante e o anão, lá dentro, limpando geral, e, no entorno do sítio, o Antanael de prontidão pelo sucesso da empreitada. A furreca já estava abarrotada de eletrônicos, talheres de prata, jóias e objetos de decoração, quando as luzes de propriedade vizinha, se acenderam. Antanael, esperto, avisou aos comparsas, que saíram da casa às pressas. Debaixo dos braços, o gigante tinha uma geladeira e uma TV de 42 polegadas.

Na caminhonetinha, de dois lugares, não cabia mais um alfinete. Meiometro fez deu a partida aos berros de anão: “Vambora! Vambora, Baita!”. O gigante deixou a geladeira na varanda, colocou a TV na cabeça do Antanael e ordenou: “Dá no pé, fi! Racha fora! Vai, vai, vai!!!” Motorizados, só o grandão e o nanico. O pobre do Antanael, com a TV na cabeça, teve que fugir nas patas. Numa fazendinha vizinha, a mula Rouge admirava o raiar do dia e mascava capim fresco. Quando se deu conta já estava montada pelo Antanael com a televisão na cabeça. “Vamo, fia! Pelo amor de Deus!! Corre!!!” O animal bem que tentou dar uma força ao ladrão em fuga, mas foi só ganhar a estradinha, quilômetro dali, para perder velocidade e deixar o Antanael em maus lençóis. A polícia chegou sem pressa para o flagrante. Na delegacia, Dona Amaralina foi visitar o filho pela manhã. Decepcionadíssima, esbravejou: “Animal, animal!”

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho - 12/9/11

Um comentário:

Cacá - José Cláudio disse...

Um anta e uma mula não dão boa coisa juntos. rsrs. Muito bom, Jefferson! Abraços. Paz e bem.