Vincent - Um solo de amor

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Amigos até morrer


Babu, Dimas e Marreco eram companheiros inseparáveis. A amizade entre os três mecânicos não era do tipo que se vê na superfície, nos latões de restos. Era coisa de raiz, de sangue, em pacto de infância, quando passaram o canivete pelos polegares e juntaram as mãos debaixo de abacateiro no Bairro Bonfim. “Amigos até a morte! Urrah”, juraram de frente para o famoso cemitério da Região Noroeste de Belo Horizonte. Nascidos no mesmo ano e vizinhos de muro, até se casaram com moças conhecidas na mesma época, pouco depois dos 20.

Sorte no amor não é coisa que se triplica e cada um teve lá o seu dissabor. Sem filhos, Marreco e Dimas até que viviam mais ou menos felizes com suas patroas. Já Babu, no dia em que perdeu emprego na Fiat, chegou mais cedo em casa e pegou a mulher trepadeira com o entregador de pão. Pensou matar e morrer de amor, mas, com a ajuda dos confrades, superou o assombro. Ainda havia muito a fazer na companhia dos amigos-irmãos. Com muito em comum, o trio, chegado num carango, cuidava com dedicação de três Opalões brancos, de 1974.

E isso atravessou o tempo. As chinelas e as bicicletinhas deram lugar aos carrões raros. Toda semana, desde os anos 1960, Babu, Dimas e Marreco se reuniam sob a copa que faz sombra e abacates nos limites do Bonfim. Foram muitas as madrugadas atravessadas no “Clube dos Mosquetas”, como batizaram o ponto. Crescidos, deixaram o bairro e cada um foi parar numa região. Ainda assim, não passavam semana sem se encontrar. A amizade para eles tinha tanto valor que, embora atuassem na mesma profissão – excelentes mecânicos de automóveis –, decidiram jamais trabalhar juntos.

Não queriam qualquer tipo de aborrecimento entre eles. “Melhor assim. Pela amizade, cada um monta a sua oficina. Amigos até a morte! Urrah!”. Levavam tão a sério o pacto que se ajudavam em tudo. Babu, o menos favorecido, até chorou quando recebeu o cheque com a vaquinha de Dimas e Marreco. “Pronto, mosqueta! Agora você já pode colocar a oficina para funcionar sem ter que vender o Opalera”, disseram em abraço camarada: “Amigos até a morte! Urrah!”. A trancos e barrancos, nunca deixaram um mosqueta na mão.

Deu que Babu, em noite de reunião, teve piripaque debaixo do chuveiro, sozinho em casa. Desde a decepção com a mulher, aos 48 anos, Babu não quis mais saber de rabo de saia morando com ele. Dez minutos de atraso foram suficientes para que Dimas e Marreco desconfiassem de algo. Em 40 anos de clube, nunca um mosqueta se atrasou. Partiram às pressas para o endereço do parceiro. Arrombaram a porta do barracão e encontraram o companheiro ausente sob as águas, no banheiro. Silêncio de dor e morte. Bastou troca de olhares para que os confrades decidissem o que fazer.

Secaram o corpo de Babu e o vestiram com seu melhor traje. Seguiram para o velho ponto da infância. Antes, passaram em loja de comes e bebes e fizeram compras para celebração de despedida. No Bonfim, sentados no meio-fio, reviveram os idos de traquinas. Ao som cassete dos Opalões, baixinho, com hits dos anos 1970, Dimas e Marreco revolveram lembranças até o raiar do dia. Sob o abacateiro, o cinquentão morto pareceu sorrir, quando ouviu bradarem os mosquetas: “Amigos até a morte! Urrah!”. Só se deram conta do sol, interrompidos pela rádio-patrulha, que queria explicações.

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho - 26/9/11

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