Vincent - Um solo de amor

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Lugar de adolescente é na biblioteca


Sábado, na Biblioteca Pública Infantil e Juvenil, tive o privilégio de participar da manhã de autógrafos do poeta João de Sá, de 13 anos. Dá-me muita alegria ver moço tão jovem dedicar tempo ao pensamento e às letras da vida. É tão comum o desperdício das ideias na adolescência. Triste fato. Independentemente das oportunidades que brotam da convivência com familiares e amigos, há o peso do interesse, do talento e da vocação vindo do coração. João de Sá é bom exemplo disso. “Versos de um menino velho” é livro de quem nasceu com o olhar de escritor, filho da poesia. Vê-se em Ludymilla Sá, a mãe, inspiração do moço em “Uma história de amor”, o orgulho de quem reconhece o valor de seus frutos.

“Versos de um menino velho” levou-me a esquadrinhar lembranças. Quando criança, pequeninho, apaixonei-me pelas histórias de José Bento Renato Monteiro Lobato. Minha professora, dona Palmira, sabia do bem que estava fazendo para a minha vida ao apresentar-me “História do mundo para crianças”, “Caçadas de Pedrinho”, “Reinações de Narizinho”, “O picapau Amarelo” e “Histórias de Tia Nastácia”. Foi só o começo de um mergulho na infinitude da imaginação. Depois, pouco mais tarde, veio a coleção Vagalume com histórias que me enriqueceram os sonhos. Títulos como “A ilha perdida” e “Éramos seis”, ambos de Maria José Dupré, “O caso da borboleta Atíria”, de Lúcia Machado de Almeida e “O menino de asas”, de Homero Homem. Da mesma série, “O escaravelho do diabo”, de Lúcia Machado de Almeida, também marcou meu encanto com as bibliotecas. Passava horas no silêncio do salão da escola com as personagens a falar na minha cabeça.

Claro que arrumava tempo para as brincadeiras de rua e quintal: futebol, pegador, rouba-bandeira, escravos de Jó, finca, piorras e carrapetas. Ah… tinha pera, uva, maçã e salada mista… Não havia videogame, menos ainda computador. Nem televisão havia na minha casa. A gente vivia de verdade, a realidade pura, longe de tudo o que é virtual. Tinha contação de história, acampamento e pescaria. O olho chega a minar toda vez que escrevo sobre o assunto e volto ao passado, com a casa cheia. Foram-se a mãe e um irmão muito amado. É a vida finita. Já com a leitura e com a escrita descobri a imortalidade, a liberdade e a infinitude das coisas. Do lado de lá das capas dos livros encontrei um viver muito além do tempo e do espaço. Assim como o jovem poeta João de Sá, que, mesmo com o mundaréu de opções dos anos 2010, faz da literatura ferramenta de crescimento e ocupação.

Conheço garotos aos montes da idade do poeta De Sá, que gastam tempo apenas com inutilidades. Cansei-me de testemunhar adolescentes perdidos desrespeitarem familiares, amigos e professores. “Um país se faz com homens e livros”, escreveu o mestre Lobato na história. Na falta de bons leitores morre o futuro das ideias. João de Sá, garoto, vai na contramão do que é instantâneo. Menino ainda, homem feito na alma, eterniza seus versos de gente grande. Passei madrugada com sua obra, poeta. Fez-me voltar no tempo, no colo e no seio da família. Também me fez olhar pra frente e acreditar que rapazes como você, João, são a salvação do mundo.

Bandeira Dois - Josiel Botelho - 5/10/11

2 comentários:

Cacá - José Cláudio disse...

Isso é que dá um certo equilíbrio nesta nossa louca , desvairada humanidade sem muitas perspectivas mais etéreas, fecundas e sóbrias. Que alegria ler isso, Josiel!

A propósito, estou publicando todas as segundas feiras no meu blog uma série sobre leitura chamada LER NÃO CAUSA L.E.R. e gostaria de saber se você me autoriaza a reproduzir esse belo texto lá, com as devidas anotações de autoria, claro.
Desde já agradeço. Abração. Paz e bem.

JFC disse...

Cacá, amigo, este quintal também é seu. Honra e privilégio ajudar com a beleza e valor da sua casa. Meu abraço! Jeff