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sábado, 22 de outubro de 2011

Dos gritos da alma













Há mais de 20 anos uma ideia de perseguição: não há bússola para as navegações do espírito. Está no ator – no corpo e na mente – o rumo dos sentidos. Para a construção da verdade instantânea, no aprumo dos significados, não há planta nem rascunho. Não há trabalho de mesa que dê conta das explosões da alma no levantamento prático da cena. Há uma infinidade de possibilidades veladas, ativadas a partir do suor do papel. Melhor o processo, melhor o desdobramento. Mais aprofundados os estudos e as orientações do corpo diretor, mais convicente o conjunto. Mesmo que para isso, seja necessário se envenenar de paixão. De resto, o tempo. Dia 12 de novembro, sábado, "Um inimigo do povo". (Jefferson da Fonseca Coutinho)


Um pouco de estudo para justificar as ações

Vsevolod Emilevich Meyerhold, era pseudônimo de Karl Kazimir Theodor Meyerhold, mais conhecido apenas por Meyerhold. Nasceu em 1874, em Penza, na Rússia. Foi um importante encenador, ator e teórico do teatro. Em oposição ao naturalismo teatral, desenvolveu uma técnica de encenação antinaturalista denominada de Biomecânica. Foi a Moscou estudar direito, mas deixou a escola em 1896 e ingressou nas aulas de Vladimir Nemirovich-Danchenko, no Instituto Dramático-Musical da Filarmônica de Moscou. Tendo concluído os estudos formando-se ator, em 1898 foi convidado a se juntar à trupe do recém fundado Teatro de Arte de Moscou - TAM, de Stanislavski, onde trabalhou por quatro anos. Templo do naturalismo e do realismo psicológico, o Teatro de Arte foi a grande escola de Meyerhold, que em 1902 decide percorrer caminhos próprios fundando uma nova trupe, a Sociedade do Drama Novo. Danchenko e Stanislavski
criaram o TAM para escapar e se contrapor ao tradicionalismo teatral de então, aos clichês repetitivos e enfadonhos, às interpretações baseadas na imitação pela imitação, na cópia servil.


O Ator na Biomecânica, segundo Márcia Lima, pesquisadora das artes cênicas em Brasília:

O ator sobre a cena é como um escultor frente a um pedaço de argila: deve reproduzir em forma sensível, como o escultor, os impulsos e as emoções de sua própria alma. O material do pianista está representado pelos sons de seu instrumento, o do cantor por sua voz, o do ator por seu corpo, a fala, a mímica, os gestos. “A obra interpretada pelo ator representa a forma de sua criação”.

O ator biomecânico é um artista que cultua e exercita a agilidade – do corpo e do raciocínio - o otimismo e a felicidade. Criador simples e despojado prescinde das máscaras naturalistas, dos clichês, disfarces e maquiagem. Este ator encontra-se em um ponto eqüidistante do trabalhador comum que faz teatro e do exímio especialista que nada vê à frente que não seja o teatro. Técnica e consciência de classe tornam o ator de Meyerhold um agente da arte e da história.

O corpo do ator é entendido como mais um objeto de cena, portanto sua disposição em relação ao cenário tem importante papel como elemento de comunicação visual. Por essas razões, outros elementos típicos do teatro de Meyerhold, como a iluminação, cenário e figurino estilizados e antinaturalistas são essenciais para o perfeito funcionamento da biomecânica.

O ator biomecânico é ágil, otimista, feliz, simples; não precisa de disfarces ou maquiagem. Nas palavras de Hormigon, “não é nem um trabalhador que faz teatro, nem um virtuose que encontra no teatro um fim em si mesmo. Graças à sua técnica e consciência de classe, o teatro se transforma em seu meio de produção e de atuação na história.”

Meyerhold cria o “Teatro da Convenção Consciente” onde tanto a platéia como ator tem a consciência de estar assistindo a uma representação, não há a intenção de criar uma ilusão no espectador. O ator é levado a ter uma maior aproximação com público o que exige dele um maior domínio do espaço.

No seu teatro, o ator, juntamente com o autor, o diretor e o público são criadores absolutos do fenômeno teatral. Embora a participação do público fosse apenas emocional, nunca física, através de sua imaginação que deveria ser empregada “criativamente a fim de preencher os detalhes sugeridos pela ação do palco”. O que força o espectador a passar de uma simples contemplação, ao ato criador.

Meyerhold eliminou o proscênio e trouxe para o seu trabalho, a máscara. Desnudou o palco e expôs os meios metafóricos do gesto, do ritmo e da maquiagem. Entre 1918-1919, Meyerhold organizou uma Escola para Treinamentos dos Atores, a fim de formar atores polivalentes que colaborassem na criação. Estudava-se, em sua escola, técnicas de movimento cênico, pantomima, Commedia Dell´Arte e teatro espanhol. O fundamento de sua biomecânica estava na idéia de centrar, no corpo do ator, a expressão e vida de seu teatro.

Sobre isso dizia: Tirem a palavra, o figurino do ator, o palco cênico, o edifício teatral e as coxias, deixem somente o ator e seus movimentos para os quais foi treinado, mesmo assim o teatro continuará: o ator comunicará ao espectador através de seus movimentos, dos seus gestos, da sua mímica; o ator pode organizar, sem a ajuda do edifício teatral, o seu teatro como, onde quiser e considerar adequado, dispondo da própria habilidade.

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