Vincent - Um solo de amor

quinta-feira, 18 de abril de 2013

Melhor remédio é o otimismo

O João Elias é amigo dos bons, dos mais otimistas que conheço. Daqueles raros que, com exemplo, melhoram a vida da gente. Teve lá em casa no fim de semana, na tarde de almoço em que Violeta caprichou pelo batizado de nosso garoto. Pouca gente. Só os mais próximos da família. E o João é irmão de consideração. Cortou mais de 300 quilômetros para comparecer à Igreja de Santo Antônio e experimentar o feijão da patroa.

Desde que se mudaram para a Zona da Mata, ele e a família têm vindo muito pouco a Belo Horizonte. “Só em ocasiões muito especiais, Josiel”, diz. Obrigado, João! Foi uma grande alegria rever o amigo otimista e exemplar. Sujeito dos mais trabalhadores e alegres de que já se teve notícia. De família de poucos recursos, irmão mais velho dos nove filhos de dona Maura, João, aos 8 anos, começou a trabalhar por iniciativa própria para a judar em casa.

Estudou só até o que era chamado “primeiro grau”. Mesmo assim foi reprovado no último ano, na oitava série. Estudava à noite. Levantava às 4h30, na Região da Pampulha, para trabalhar como servente de pedreiro. Depois do dia inteiro no serviço pesado, ainda reunia forças para ir para à escola. Foi quando a gente se conheceu. Ele, pregado de tanto cansaço, dormia na sala, no último horário, por volta das 22h. Não era para menos.

Resultado: aos 16 anos, reprovado na oitava série. Na ocasião, falava que estudar não era para ele. “Tenho é que trabalhar. Ganhar dinheiro pra ajudar a minha família”, disse-me. Nunca esqueci. No ano seguinte, até estava matriculado, mas não voltou aos bancos da escola. Encarou firme o trabalho e ajudou a mãe a sair do aluguel com os irmãos mais novos. Como ele, todos os outros filhos de dona Maura seguiram o caminho do trabalho.

Depois que João deixou a escola, ficamos um tempo sem contato. Até que, por essas manobras do destino, Marília, mocinha mais velha da dona Maura, veio parar no meu táxi. Cinco anos passados, não dei conta de reconhecer a irmã do João. Estava crescida e bastante mudada. Mulher feita. Retomamos o contato e a boa amizade. João havia deixado o serviço de servente e juntado dinheiro para comprar três carroças e trabalhar com outros dois irmãos.

Fiquei triste quando soube da morte do pai dos meninos, vítima de acidente de ônibus. A situação que já era difícil ficou ainda mais complicada. E o que, na época, já me impressionava é que, na casa de dona Maura, com nove filhos, ninguém reclamava da vida. Todos, sempre, cheios de otimismo. Havia alegria em tudo naquele endereço. Uns pelos outros em toda e qualquer circunstância. Jamais conheci família mais unida, alegre e otimista na vida.

Enquanto João Elias, Humberto e Chico tocavam o negócio das carroças em serviço de limpeza urbana, dona Maura e as filhas trabalhavam – lavando e cozinhando para particulares. Há dois anos, João Elias juntou recursos com irmãos e cunhados. Juntos, compraram uma terrinha para investir na plantação de grãos. Dona Maura resistiu, mas acabou cedendo e topando deixar BH. Só Anita, a caçula, na faculdade de administração, ainda não foi.

João, a mulher Fabiana, e o filho Luiz Carlos, de 7, estão felizes com a vida nova. Domingo, depois que nossos convidados se foram, Violeta e eu conversamos muito sobre a história de vida de João Elias. Minha mulher estava comigo e ouviu o amigo, por horas, contar sobre os irmãos. Em momento algum, algo ruim. Eterno otimista, João só tinha motivos para se orgulhar da família, agradecer o presente e acreditar no futuro.

Bandeira Dois - Josiel Botelho

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