Vincent - Um solo de amor

segunda-feira, 1 de abril de 2013

A dama da noite



O Marciano nunca mais foi o mesmo depois daquela noite de Páscoa. Faz anos que o vendedor de automóveis conheceu a mulher pintada. Jamais experimentou noitada como a que teve com a antiga moradora do Bairro Alípio de Melo. A mulher, que cheirava a dama-da-noite, tinha olhar de promessa e gosto de rosa. Foi hora de entrega sem limites. Para nunca mais.

Conheceram-se assim, ao acaso, em noite rara de chuva e ventania. Ele, mais ou menos feliz, havia acabado de deixar o bar com os amigos. Ela, parada sobre o quebra-molas. Linda, com vestido branco molhado, desenhado no corpo perfeito. Ao diminuir a velocidade para ultrapassar lombada, Marciano bateu os olhos na mulher de sardas e parou o carro. Ficou ali, boquiaberto, a observá-la pelo retrovisor. Ela caminhou em sua direção e, sem dizer palavra, abriu a porta e entrou no carro.

Minuto de silêncio. Vidros fechados, embaçados no Verona. O rádio, desligado, funcionou sozinho. Música antiga, melosa, dos anos 1970. Motor apagado, Marciano não tirou os olhos da carona. Esquadrinhou cada curva em gotas. Respiraram juntos um só suspiro. Deram-se as mãos, num ato lento e simultâneo. Frias, geladas. Apertaram-se as linhas da vida. Leram-se. Beijaram-se demoradamente, sob o vaivém das paletas para expulsar as águas no vidro. Quarentão solitário, ele ardeu em vontade pela estranha. Um ou outro carro cortava a via naquela meia-noite. A chuva ganhava força à medida que o casal se dedilhava. No ar, aroma. Ao vento, sussurros.

Roupas arrancadas com violência. Fizeram valer a suspensão do Verona. No rádio, por conta própria, mais volume para a balada dançante. Baile louco, acinturado. Uma. Duas. Três vezes nos estofados inclinados. Ah… Grito parado no ar. Desmanchados, sem pressa, cataram suas vestes. Ajeitaram os cabelos em sorriso e cansaço. Ao fim da última canção, o aparelho parou de tocar. Ele bem que tentou. Não teve jeito. Enguiçado.

“Preciso ir”, lamentou a estranha. “Eu te levo”, ele respondeu. “Eu te mostro o caminho”, ela sorriu. Marciano dirigiu até pequena rua escura. “É aqui”, ela disse, apontando para a placa azul 77. Longa pausa. “Posso entrar?”, ele quis saber. “Melhor não”, pontuou a sardenta, doce. Palmas tocadas em despedida. Ela desceu e venceu o portão enferrujado. Bela, sorriu antes de sumir no quintal.

Marciano partiu sob tempestade. Não pregou os olhos até amanhecer. Trabalhou durante a manhã com a cabeça na mulher pintada. Na hora do almoço, decidiu reencontrar a estranha. Com dificuldade, localizou a rua estreita. Ao chegar diante do número 77, reconheceu a casa. Abandonada, porém. Emudeceu-se quando soube, pelo vizinho, que a moradora, uma bela mulher ruiva, ali, havia morrido há mais de cinco anos.

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho

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