Van Gogh - Temporada 2017

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Estreia dia 17, no Teatro Marília

quarta-feira, 10 de abril de 2013

A miséria no olho da rua


O assunto merece reflexão. Nos dois últimos anos, em “turnê” com companhia teatral pelo interior de Minas Gerais, fiquei bastante encabulado com a ausência de pedintes e moradores de rua na grande maioria das cidades visitadas. Todo mundo bem, trabalhando e dono de casa. Especialmente, no Triângulo Mineiro e Alto Paranaíba. Será mesmo que, por essas bandas, tudo anda tão bem assim?

Em vários lugares, de muitos moradores, ouvi que, ali, não havia mendigos porque eles chegam e são despachados no mesmo dia. Não são bem-vindos. Para muitos, sujam e desvalorizam a cidade. Provocam uma tremenda sensação de insegurança e atraem outros, que atraem outros… e outros. Carlos, o amigo produtor cultural, observa: “A boa gente pobre, miserável, podia mesmo não estar nas ruas. Não porque são despachados. Mas pelo fim da miséria, das drogas e da falta de vontade política… no interior e nos grandes centros. Isso sim!”, sonha.

Enquanto isso, os “fiscais”, implacáveis, despacham pela ordem e limpeza pública. “Tem muita gente vigiando na rodoviária. Quando alguém desembarca, estranho, sem rumo, com pinta de pobre que vai ficar na rua, o fiscal dá um prato de comida, ajuda no que é possível, e paga a passagem para a capital”, revelou o pipoqueiro antenado com o movimento de sua terra natal. Em outra cidade vizinha, linda, cheia de praças, a comerciante endinheirada também afirmou que, lá, “morador de rua não tem vez”.

“Aqui, eles têm que tomar o rumo de outro lugar no mesmo dia. Tem muita gente organizada, disposta a evitar que os moradores de rua venham afear o município”, diz a mulher. Fato é que, em Belo Horizonte, segundo o Movimento Nacional de População de Rua, em seis anos, o número de sem-teto dobrou. Já são 2,2 mil. Em 2006, eram 1,1 mil. Um retrato da miséria, pelo olho da rua, que, infelizmente, está longe de acabar no Brasil.

Há também outro agravante já conhecido: as drogas. O crack está tomando conta e acabando com a vida de muita gente. O mal que assombra todas as classes sociais brasileiras está entre todas as idades. É caso de saúde pública. No interior, em algumas cidades, o crack está empobrecendo famílias inteiras. “Meu irmão sempre foi trabalhador, honesto. Começou a mexer com isso e acabou. Perdeu o que tinha e o que não tinha”, conta Josué, o frentista.

A família do Josué tem tradição no trabalho em campo, nas plantações de soja, café e com gado de corte. O homem simples, trabalhador desde garoto, só tem a lamentar os últimos tempos. “Não é só meu irmão não. Tem muito primo e conhecido também que largou a lavoura pra mexer com droga. Só não tão morando na rua porque Deus não deixa. Só que não vai demorar, se continua como tá, vão é morrer, né!?”.

Se, no interior, o crack é tão assustador, podemos imaginar, então, o tamanho do mal que tem assombrado Belo Horizonte. Aqui, não temos notícias de “fiscais” despachando os moradores de rua para canto algum do país. E esse número absurdo, 2,2 mil, dobrado em seis anos? Não é preciso rodar muito pela cidade para encontrar os viciados largados pelo espaço público, próximo ao hipercentro. É a miséria tomada pelo tráfico. Só não vê quem não quer, amigo leitor. Só quem não quer.

Bandeira Dois - Josiel Botelho

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