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quarta-feira, 24 de abril de 2013

Quando a fé vira doença



Sou um homem de fé. Creio num Deus generoso, bem maior que o céu e a terra. Está em mim, está no amigo leitor, está nas estrelas do céu e do mar… está em todos os lugares. Não há movimento algum, numa folha sequer, que não seja provocado pelo sopro dessa força extraordinária e criadora, creio. Aprendi cedo, com o velho Botelho, a respeitar todas as religiões. Não muda em nada meu amor pelo próximo se ele é desse ou daquele grupo religioso. Das lições e bênçãos que trago de Deus, a mais importante, sem dúvida, é que sua presença é sinônimo de amor.

Sendo assim, Bandeira Dois de hoje é o desabafo de um amigo. Depois de ouvir a história do Euclides, amigo e passageiro das antigas, aborrecidíssimo por ter que dispensar a senhora que trabalhava na casa dele. O Euclides, professor de história, é homem estudioso e bom pai de família. Casado, apaixonado pela mulher e pelos três filhos já crescidos. Filho único, meu amigo levou a mãe para morar com ele em Lagoa Santa, na Região Metropolitana. Casa construída com suor e muita dificuldade. Para agradar a mãe, fez uma gruta com uma imagem de Nossa Senhora.

O lugar é um encanto. Um cantinho iluminado por lâmpada azul e entre flores para prece e meditação. A mãe do Euclides é católica e mulher de muita fé em Nossa Senhora. Tem razões de sobra para agradecer e enfeitar com flores de todos os tipos o altar que lá está. Respeito, admiro e, verdadeiramente, acredito na força dos símbolos daquele lugar sagrado. A imagem de Nossa senhora, em gesso, é linda e sua expressão me acalma a alma. Cheguei a comentar isso com o Euclides na festa junina que ele promoveu no ano passado.

Acontece que, no início do ano, uma senhora evangélica foi trabalhar na casa do Euclides. Daqueles grupos radicais, capazes de chutar os santos, a mulher de meia idade passou a “ver o diabo” naquele canto. Vítima de lavagem cerebral na congregação a qual pertence, certamente, a mulher não só abominava a imagem de Nossa senhora na gruta, como também passou a demonizar todos os quadros e símbolos católicos da casa. Não contente, ainda passou a falar pelos cantos e pela vizinhança que ali, naquela casa, morava o diabo.

A coisa se espalhou de tal maneira que acabou chegando no ouvido do Euclides. Curiosamente, de um evangélico de outro grupo, zelador do condomínio. O homem, idôneo e boa gente, com mais de 10 anos de trabalho no endereço, chamou meu amigo no canto e o alertou sobre o que a dona estava espalhando. O Euclides quase teve um piripaque. “Josiel, não acreditei no que tava ouvindo. Você me conhece… sabe da vida reservada que procuro levar… me explica… como é que uma pessoa passa a trabalhar na minha casa e me cria um problema dessa natureza?”, desabafou.

Muito incomodado com a história, Euclides foi apurar a situação com outras pessoas simples do condomínio. Ficou boquiaberto ao ouvir – “até dos mais discretos” – o que a evangélica andou espalhando pelo lugar. Em fevereiro, o professor andou doente, com pneumonia. Até isso foi assunto para a “pastora” que assegurou que a doença era coisa do “diabo da gruta”. Euclides precisava desabafar. No meu carro, entristecido com toda a situação, revelou-me que não teve outra opção: foi obrigado a demitir a mulher.

Na gruta, em Lagoa Santa, para encerrar de vez os aborrecimentos dos últimos tempos, flores brancas para Nossa Senhora. Homem de bom coração, o Euclides disse ter feito prece e pedido pela evangélica que, “sem noção de respeito à vida alheia”, vivia de fazer da fé doença brava. Em mim, Deus é amor! Simples assim: não importa o templo… menos ainda a religião. Aqui, entre nós, pobres mortais, uma lição: a língua é o chicote do corpo.

Bandeira Dois - Josiel Botelho

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