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segunda-feira, 22 de abril de 2013

O drama da menina livre

Berenildes da Costa foi daquelas beldades que faziam ajoelhar os rapazes mais descolados dos anos 1960. Em paz e livre para o amor, a mulher teve todos os homens que quis aos pés. Linda, de corpo perfeito e bem à frente de seu tempo, a bela de roupas coloridas e cabelos na cintura sabia como ninguém arrancar um suspiro.

Tomou de conhecidas – algumas amigas até – os namorados mais fiéis. João, Beto, Ricardo, Lu, Maurício, Chico, Breno, Joaquim, Roberto, Walley, Thomas, Tonico, José e Frederico, todos maconheiros, fizeram sofrer mais de dúzia de boas companheiras por causa de Berenildes. Bastava ela dobrar a seda para a rapaziada endoidecer de amor.

Estudante da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas (Fafich), da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Berenildes era diferente da grande maioria de seus colegas de sala de aula. Enquanto grupo de estudantes discutia o futuro do país e enfrentava – como podia – as forças armadas, a moçoila só queria se acabar no colo e na maconha.

Tanta diferença fez Berenildes largar os estudos e curtir a vida com a mesada do pai, fazendeiro da Região Central de Minas. Filha única, a beldade pintava e bordava com o seu Natanael, viúvo e dono de coração sem igual. “Deixa a menina viver, Zé! A vida é uma só”, dizia o homem para o irmão que morava em Belo Horizonte, padrinho de Berenildes, que queria porque queria dar jeito na menina.

O tio advogado até que tentou acompanhar os passos da afilhada na capital. Aconselhou, chamou a atenção... brigou... esperneou e nada. Por fim, decidiu entregar para Deus. “Essa, só o diabo!”. Berenildes tatuou o sol, a lua, o mar e as estrelas no corpo. Encheu de flores os braços e mandou ver raízes nas pernas. Nas costas, duas asas gigantes para ir mais longe.

Natanel morreu e Berenildes chorou semana. Sem ter nada a ver com a terra em que nasceu, vendeu tudo para rodar o mundo com o patrimônio deixado pelo pai. Tio Zé, sempre presente, tentou tirá-la de cabeça: “Sossega o facho aqui, menina. Vai estudar!”. Em vão. No exterior, Berenildes seguiu a promover suspiros. Fogosa e desgarrada, a ex-universitária só queria saber de farra entre os mais livres e drogados.

Livre, apaixonou-se por colombiano que vivia em Londres. O sujeito, Lorenzo, era sua cara metade: “Me gusta disfrutar de la vida. Es todo lo que importa a mi, mi amor”, vivia de repetir o bonitão. Traficante procurado por autoridades internacionais, Lorenzo caiu e levou junto Berenildes. Hoje, à espera de julgamento, o casal troca bilhetes de amor em dois presídios de Bogotá. É o tio Zé, velho e doente, quem tenta trazer de volta a afilhada.

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho

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