Vincent - Um solo de amor

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Um mergulho na pediatria


Na última quarta-feira de outubro, publicamos “Falta de pediatra assombra o futuro”. O texto rendeu. Tema de grande interesse público, a falta de médicos pediatras é motivo de grande preocupação para o cidadão de bem. Paulinha Andrade, passageira e jovem mãe de família, escreveu entristecida sobre as agruras que ela e o marido passaram em 2010, quando nasceu o pequeno Lucas:

“Josiel, que bom que você conseguiu encontrar um bom pediatra para o seu filho. Conheço o doutor Hugo, lá do Vila da Serra. Ele é médico da minha sobrinha. Realmente é um profissional muito diferente da maioria que temos por aí. Lendo a sua coluna, soube que você e Violeta passaram pela mesma novela que Juarez e eu. As consultas são cada vez mais corridas e parece que é um favor. Criança não dá lucro. Acho que é isso. Pagamos caro pelo convênio e ainda temos que enfrentar os tais ‘encaixes’ que você escreveu. É um absurdo. Alguém tem que fazer alguma coisa urgente, né!? Parte desse povo que faz medicina tem que parar de pensar em dinheiro. Por que eles não entram para a política?”

Tocado pelo e-mail da Paulinha, mergulhei no assunto. Esquadrinhei notícias da Sociedade Mineira de Pediatria (SMP) – ouvi a boa gente de lá – e fui atrás de estudantes de medicina e residentes de pediatria. Ouvi até doutores da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Também estive conversando com profissionais do Hospital Sofia Feldman, referência no Brasil, com mais de 100 mil nascimentos em 30 anos. Estive na PUC Minas, em Betim, e ouvi alunos do primeiro ano de medicina. Lá, para a primeira turma, foram 98 candidatos por vaga. Encontrei quatro jovens decididos a abraçar a pediatria. O espaço aqui é curto para reproduzir tudo o que encontrei.

Encontrei meia dúzia de estudantes de 20 anos, sonhadores, que dizem estudar medicina para fazer diferença no Brasil. Preocupados com o futuro, dizem querer, em primeiro lugar, o bem das crianças. Mostram-se avessos ao lucro – mesmo com os quase R$ 4 mil pagos por alguns pela mensalidade do curso. Encontrei moça residente que não quer nem ouvir falar em convênios médicos. “Pagam mal, desvalorizam o nosso trabalho e estimulam um atendimento raso, às pressas. O médico que aceita ganha na quantidade. Não quero isso para a minha carreira”, disse a jovem doutora.

Dos melhores depoimentos, o de uma pediatra, especialista em neonatologia, com década de formada. Doutora Juliana Cantarelli é retrato de uma categoria que merece respeito. Em vez de consultório de luxo e consultas de “encaixes” por R$ 300, a pediatra encara jornada de 54 horas semanais pela melhor condição de vida dos recém-nascidos. Em consultório e em sala de aula, conheci o doutor Eduardo Tavares, outro valente de branco que ensina paixão e valores que muitos doutores desconhecem.

Há muito o que escrever sobre a especialidade em baixa – de 2000 para cá, segundo a SMP, o número de candidatos à titulação pediátrica reduziu em mais de 50%. Hoje, o mais urgente a dividir com o amigo leitor é que encontrei bons sujeitos – jovens e veteranos – trabalhando pela valorização do pediatra e pelo futuro de nossas crianças.

Bandeira Dois - Josiel Botelho


Os pais agradecem

Por Jefferson da Fonseca Coutinho

No corredor que dá para a sala de aula de medicina, os alunos de direito distribuem mensagens em papel picado. Tarefa de filosofia câmpus adentro. O recado diz: “Não é tanto o que fazemos, mas o motivo pelo qual fazemos que determina a bondade ou a malícia”. Quem assina é Santo Agostinho. Lhaiza Emanuele Marques de Souza, de 19, e Laura Alvares Marton Rangel, de 23, recebem seus bilhetes de letra miúda. Mostram-se tocadas. As duas são estudantes do primeiro ano de medicina. Raras, tão cedo, já estão decididas pela pediatria. Sabem bem das agruras da especialidade – má remuneração, carga horária de trabalho sem igual e hospitais de portas fechadas para a vocação. Em Minas, nos últimos 10 anos, de acordo com a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), o número de candidatos à titulação pediátrica, reduziu em mais de 50%. Lhaiza e Laura, idealistas, querem ajudar a aumentar o número de profissionais no estado. Hoje, há um pediatra para 2.720 crianças em todo o estado.

Laura e Lhaiza entendem que, em questão, estão outros valores além de salários e benefícios com a carreira. “Quando entrei para o curso não pensava em pediatria. Lá fora, há uma aversão a especialidade. Como se você, pediatra, deixasse de ter vida própria para cuidar do filho dos outros”, conta Laura. A estudante diz que na universidade passou a ter outra visão da especialidade. Diz-se tocada pela paixão dos professores, pediatras bem sucedidos, que ensinam uma profissão “muito além do dinheiro”. Lhaiza, vinda de Ubaporanga, no Vale do Rio Doce, está igualmente feliz com o curso. Especialmente depois de vencer quase 100 candidados pela vaga na primeira turma da Puc Minas. Acaba de assistir ao primeiro parto no Hospital Regional de Betim, na Região Metropolitana de Belo Horizonte. “Acompanhei o exame clínico do bebê. A gente não pode visar só o financeiro. É preciso acreditar que você pode fazer a diferença”, emociona-se. No bolso de Lhaiza, o papel recebido das mãos do estudante de direito: “O dinheiro é a essência alienada do trabalho e da existência do homem; a essência domina-o e ele adora”. Um tal Karl Marx.

Daniela de Cássia Sampaio Miranda, de 19, mora na Região da Pampulha. Até o câmpus da medicina, na Região Metropolitana, são cerca de 4 horas diárias – somadas ida e volta – pelo sonho de formar-se pediatra. Com outras 8 horas em sala de aula, o resto é para mais estudo, alimentação, sono e, quando é possível, um pouco de lazer. A estudante, sorrindo, comenta que, pela boa formação, serão mais pelo menos oito anos assim. Tanto esforço e dedicação pelo propósito de “ajudar as crianças”. “Sinto que posso ser mais útil para a sociedade como pediatra”, diz. A opção pela especialidade, segundo Daniela, foi também influência do bom atendimento recebido, guardado na memória. “Minha pediatra, doutora Vânia, sempre foi muito boa comigo. Gostava demais de ser atendida por ela”, relembra. Outro que venceu 97 candidatos pela vaga de medicina, já pensado em pediatria, foi Jhonson Tizzo Godoy, de 20, vindo de Uberlândia, no Triângulo Mineiro. Foram 15 vestibulares e uma iniciação em Biotecnologia. Para o estudante, que quer cuidar de crianças com câncer, a falta de pediatras é uma motivação a mais. “A medicina já é um sacerdócio e a pediatria é ainda mais que isso”, considera.

Em sala de aula, o professor Eduardo Carlos Tavares, de 63, aposentado pela Universidade Federal de Minas Gerais e professor da Puc Minas. Médico desde 1974, o pediatra não esconde o carinho pelos 59 alunos. Menos ainda o amor pela especialidade com a qual faz história e educou a família. “Quantro entrei para a medicina a única certeza que eu tinha era a de que não seria pediatra. No último ano,  a pediatria, em três meses, foi indiscultivelmente a melhor parte do curso. Encantei-me pelas crianças e pelos meus professores”, diz. A profissão em baixa, segundo o veterano, se deve a dois fatores: “O primeiro, é o da especialização, como já acorreu com a Clínica Médica, quando os médicos buscaram outras áreas de atuação em busca de novas oportunidades”. O segundo, diz o professor, é, de fato, a remuneração. “Não há, na pediatria, valor agregado com exames, como ocorre com o oftamologista e com o cardiologista, por exemplo”, explica. Além disso, o doutor professor avalia que os convênios, como estão, contribuem ainda mais para a baixa remuneração do pediatra.

Retrato da vocação

No Hospital Sofia Feldman (HSF), maior maternidade de Minas Gerais – responsável por mais de 100 mil nascimentos em 30 anos, com cerca de 800 partos por mês –, a doutora Juliana Cantarelli, de 34 anos, fala da paixão pela pediatria por amor às crianças. Com jornada semanal de 54 horas, Juliana, entre pequenos – alguns com pouco mais de 1kg – no Centro de Tratamento Intensivo (CTI) ou na Unidade de Cuidados Intermediários (UCI), é retrato da vocação. Para a médica, o pediatra não é um profissional qualquer. “Você tem que se dedicar, estar disponível. É uma tristeza que a pessoa trabalhe por dinheiro e esqueça o próximo”, diz.

Mãe do Matheus, de 2, e do João Pedro, de 4, Juliana conta que se decidiu pela neonatologia, quando – logo no início da carreira – viu morrer um recém-nascido com 7 dias, tomado por infecção. “É paixão. Quem escolhe a pediatria não escolhe pela criança apenas, escolhe a família. Vejo com entusiasmo a estrutura familiar se formando”, sorri. A maior recompensa do pediatra, segundo Juliana, não é a remuneração. “É a satisfação de ver as crianças saudáveis, se desenvolvendo... é a alegria das mães”. Mães como Karen Lopes dos Santos, de 20, há 76 dias no hospital, de plantão pela saúde do filho Kaio, prematuro, nascido com 28 semanas e 1,1kg.

De olhos iluminados, Karen, de Belo Vale, a 82 quilômetros de Belo Horizonte, comemora a recuperação de Kaio. Com o quadro agravado por pneumonia, o mocinho viveu dias difíceis no CTI. Saudável, com 40 semanas e 2,490kg, o bebê acaba de chegar à UCI e a jovem mamãe não vê a hora de ir para casa. Satisfação que a doutora Juliana não esconde ao ver a jovem mãe, feliz, embalar o rebento. Na UTI, bela e miúda, Ana Cláudia, nascida com 1,3kg e 31 semanas, espera a sorte do belovalense Kaio.


Entrevista/Paulo Poggiali

“A pediatria é uma atuação que se traduz em cidadania”

Quando entrou para a Faculdade de Medicina de UFMG, em 1970, interessado nos aspectos psicossomáticos das doenças, o médico Paulo Poggiali pensava em ser gastroenterologista. Bastaram as primeiras aulas de pediatria, com professores como José Silvério Santos, para a especialidade marcar de forma definitiva os rumos do jovem Poggiali, hoje, presidente da Sociedade Mineira de Pediatria (SMP).

Em algum momento da carreira o senhor pensou em deixar a pediatria?
Definitivamente não! Faria novamente e faria melhor. Não me vejo atuando em outra área da medicina. O envolvimento com a pediatria, de forma ampla, é parte inseparável de minha vida.

Porque os jovens médicos devem continuar optando pela pediatria?
Primeiro porque devem, no envolvimento que se deseja seja intenso com todas as matérias ministradas nas escolas de medicina, deixar acontecer a vocação. Mas também porque praticar a pediatria, com toda a sua abrangência e complexidade, com consequente enorme exigência na formação universitária e na especialização, mas com emoção e o natural  reconhecimento e respeito com que os pais e as próprias crianças retribuem, permite    ser verdadeiramente médico.

Qual é a verdadeira importância do pediatra para a sociedade? 

Creio que pode ser resumida no fato real de que a atuação pediátrica contribui de forma essencial e  definitiva para o crescimento e desenvolvimento de crianças e adolescentes. Resulta em adultos saudáveis física e psiquicamente. É uma atuação que se traduz em cidadania, garantidora do futuro do país.

Como o senhor vê o futuro da pediatria?
Vejo com confiança e tranquilidade. Sou muito otimista, porque percebo que a população, em todas as faixas sociais, entende ser o pediatra  o profissional realmente preparado para a atenção à infância e adolescência. E os gestores de Saúde Pública e Suplementar percebem a pressão resultante deste entendimento.

A insegurança dos pais, que acaba exigindo muito do pediatra (atendimento a qualquer hora, telefones, e-mails...), ajuda a afugentar os profissionais da área? 
Não! O pediatra gosta do que faz, interage com grande satisfação com os pais de seus pacientes. O pediatra é o verdadeiro "médico da família". Interage com pais , avós e crianças com alegria e habitualmente com emoção.

Existe algum plano de campanha nacional para atrair estudantes de medicina para a pediatria?
Sim. A Sociedade Brasileira de Pediatria e, em Minas, a SMP, apoiam a criação e manutenção das Ligas de Pediatria, cuja atividade científica nas faculdades de medicina permite aos acadêmicos ampliar o conhecimento específico  que, ali, lhes é ministrado.  E as ligas permitem que os estudantes se envolvam com a fascinante pediatria, reforçando ou estimulando vocações. Também, a abertura para participação dos estudantes nas atividades científicas (congressos, simpósios, cursos) de pediatria, que acontecem por iniciativa das sociedades de pediatria em todo o país, aproximam e despertam nos jovens acadêmicos o interesse pela especialidade.

Palavra de especialista
Maria do Carmo Barros
Professora Associada do Departamento de Pediatria da Faculdade de Medicina da UFMG

Sou pediatra com orgulho. O pediatra é aquele que consegue visualizar o bebê, a criança ou o adolescente em seu contexto de vida, incluindo a família, a escola e o circulo de amizades. A consulta demanda um tempo maior, com orientações sobre prevenção, vacinas, desenvolvimento e crescimento. A profissão requer boas condições de trabalho e tranquilidade para a tomada de decisões. Os jovens residentes que optam pela especialidade buscam a realização de um sonho, que um dia também foi o meu. Nos últimos anos tem ocorrido diminuição no número de pediatras, fechamento de serviços e desinteresse do recém-formado pela nossa área. Nossos colegas estão se mobilizando e a defesa profissional de forma individual e coletiva deve ocorrer no nosso dia a dia. Sou professora do Departamento de Pediatria da Faculdade de Medicina da UFMG e busco a educação de qualidade, permeada pela construção do conhecimento, acompanhando as mudanças nesses novos tempos tecnológicos e informacionais. Mostro aos alunos e residentes o “lado bom” e os aconselho a combater a falta de tempo para o atendimento dos pacientes, as condições inadequadas de trabalho, a exploração da mão de obra e a pouca agregação de valor à consulta. Não dormir para dar cobertura a plantões, receber telefonemas de madrugada ou aos finais de semana são fatos corriqueiros na nossa vida, mas se fazemos o que gostamos, de forma saudável, seremos felizes, e a felicidade, segundo Kant, é o objetivo de todo ser humano. Existe do “outro lado” da nossa mesa pessoas que nos procuram, confiando na nossa sabedoria e vocação. O nosso olhar e a nossa “escuta” podem salvar ou melhorar a qualidade de muitas vidas!

Saiba mais: pediatria

A especialidade surge em 1722, na Suiça. Théodore Zwinger, médico, demonstrou que os sinais e sintomas das doenças nas crianças são diferentes dos que se observam nos adultos. Os médicos, então, passaram a acentuar a necessidade de se conhecer as peculiaridades das reações do organismo infantil. Com a introdução da metodologia científica na produção de conhecimentos, a pediatria delimitou-se como ramo da medicina especializado no ser humano em crescimento e desenvolvimento.

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