Fantástico - Vai fazer o quê?

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

A encantadora das letras

 A voz é sedutora, o olhar vai longe e as mãos, pintadas de carmim, dominam a narrativa no traço do imaginário. Tudo o que é texto – a entrevista até – ganha vida, nuança e ritmo arrebatadores na cadência da oradora. Desse modo, não é de surpreender o sucesso de Rosana Mont’Alverne na arte de contar histórias. Advogada de carreira, mestre em arte-educação, a fundadora do Instituto Cultural Aletria, aos 52 anos, em plena era digital, trabalha pelo resgate e pela propagação dos contos tão encantados por nossas avós. Além de rodar meio mundo em busca de fábulas, Rosana fundou escola para contadores e editora pela valorização da memória. Desde 2007, sua Feira de histórias é atração, aos sábados, na arena da Praça Tom Jobim, no Bairro Santa Efigênia. É ela, também, quem está à frente de um dos projetos de recuperação mais bem-sucedidos dentro do sistema prisional brasileiro: o Encantadores de Histórias, da Associação de Proteção e Assistência aos Condenados (Apac), de Itaúna, na Região Centro-Oeste do estado.

Na garagem feita varanda, as poltronas coloridas são um convite à transposição do tempo e do espaço. O belo casarão de cor alegre na Rua São Domingos do Prata, no Bairro Santo Antônio, é cenário para o trato das letras e salão de ensino pela vida das palavras. No endereço de número 697, são formatados livros e compartilhadas experiências no encantamento dos enredos. Numa das salas, pequena e expressiva pista do que alimenta o lugar: “Contar histórias é fazer afagos no coração. Pisque os dedos”. Presente de ex-aluno, pendurado na parede. Modo de doçura, mimo e retribuição para a posteridade. Orgulhosa, Rosana sorri: “A palavra, em nós, é alimento para a alma. As histórias são etapas para a evolução”. Na mesa, entre encadernações, restos da campanha “Quero o saci mascote da Copa do Mundo”. A Aletria fez de tudo para emplacar o traquinas de uma perna só como símbolo internacional. “Perdemos para o tatu-bola”, diverte-se. Ali, não há tempo ruim ou desfecho sem graça.

Janela para a imaginação, os livros pululam desde o cômodo de entrada. Nas mãos de Juliana, filha e sócia de Rosana, A condenação de Emília – O politicamente correto na literatura infantil e Através da vidraça da escola – Formando novos leitores, ambos de Ilan Brenman, e Textos & Pretextos – Sobre a arte de contar histórias, de Celso Sisto. Mais adiante, escritos por Rosana, ganham a cena Meu pai é uma figura e O ovo amarelinho da galinha do vizinho. Já são 27 títulos em três anos, mais sete trabalhos no prelo. Realização de braços dados, mãe e filha Mont’Alverne, na administração do que foi sonho. Vontade tocada em profundidade durante o Festival de Inverno de 1995, na histórica Ouro Preto, quando Rosana participou de oficina para contadores ministrada pelas professoras Cecília Caram e Gislayne Matos.

A passagem como aluna reacendeu na advogada a chama herdada dos pais e do avô Pedro, “de voz de trovão”, em Roças Novas, quando menina ainda. “Lembro-me bem do meu avô, sentadinho, muito magro, cheio de causos da roça, especialmente sobre os bichos de lá. Fonte onde nem bebia, nadava em histórias”, conta. Rosana relembra ainda a mãe, Lilia, descascando bacia de laranja-serra-d’água para os filhos, reunidos, sedentos por histórias. Antes do festival em Ouro Preto, Rosana cursou artes cênicas no Teatro Universitário (TU), da UFMG. em 1987, Verve na veia, quase 20 anos depois, em 2005, a inauguração do Aletria, nome sugerido pelo irmão mais velho, Ruilon, inspirado por Tutameia, de Guimarães Rosa. Nesse hiato – dos estudos da cena até a fundação do instituto –, a carreira no Tribunal de Justiça de Minas Gerais, especialização e mestrado em arte-educação.

No repertório de Rosana, em andanças nacionais e internacionais, mundaréu de histórias colhidas em campos dos mais diversos – além de outras tantas inventadas ou adaptadas por ela. Para a artista, está nas crianças e nos bichos, na natureza, a maior fonte de inspiração. Estudiosa, vê com entusiasmo o trabalho dos brinquedólogos, “que quebram a cabeça para resgatar a infância”, na contramão dos recursos tecnológicos e da febre virtual do século 21. Para a mestre em arte-educação, haverá sempre espaço para o calor das histórias, para a imaginação dos jovens e dos adultos. “Falaram que o computador iria acabar com o emprego. Não foi o que aconteceu. No caos, voltamos ao princípio. E o princípio é a fase oral. Voltamos para Homero, voltamos para a palavra”, ressalta. Rosana justifica o fenômeno do contador de histórias nos grandes centros urbanos, como movimento natural de equilíbrio, das raízes interioranas do homem.


Memória afetiva e recuperação

“É a vida. Todo movimento que vai muito para um lado acaba criando um movimento também no sentido contrário. A contação de histórias ressurgiu nos anos 1970 e ganhou força na Inglaterra, justamente uma das primeiras sociedades industriais do mundo”, avalia. Perguntada sobre a nova infância, tempo em que pais permitem que os filhos passem horas diante de animações hipnóticas nas tevês, ela não vê a época de todo sem solução. “A infância tem jeito. Por outro lado, existem novos pais preocupados com a sensibilidade dos filhos, que ainda contam histórias e valorizam a presença.”

Para Rosana, o que nos liga fortemente às nossas raízes são as memórias afetivas, que passam pelos nossos sentidos. “O barulhinho do grão caindo, o cheiro do café torrado, o som da tábua corrida da casa antiga, a voz dos avós… são esses sentidos que vão formando a pessoa que você é”, ensina.

Motivos de satisfação com o Aletria não faltam. Entre tantos, um se destaca: Os Encantadores de Histórias, grupo formado com recuperandos do sistema carcerário de Itaúna, dão brilho a mais aos encantos de Rosana Mont’Alverne. “Já abrimos o ano letivo de faculdade de direito de universidade carioca”, orgulha-se. Na ocasião, o grupo se apresentou para auditório com cerca de 700 pessoas. Tudo começou com uma carta-convite de um juiz letrado, que citou Cecília Meireles: “Não faças de ti um sonho a realizar. Vai”, finalizou o magistrado.

Embora o convite tenha sido feito em 2002, apenas em 2004 a advogada e artista pôde abraçar a causa e desenvolver o trabalho com os recuperandos da Apac de Itaúna. Desde então a experiência bem-sucedida com o grupo ganhou projeção nacional.


ERA UMA VEZ...
Desde 2007, o Instituto Aletria promove espetáculos com entrada franca, aos sábados, na Feira Tom Jobim, no Bairro Santa Efigênia. Este ano, desde 4 de agosto, contadores profissionais e alunos do Instituto Aletria dividem a arena no encontro das avenidas Bernardo Monteiro e Brasil, com expositores de antiguidades e barracas de comidas. A Feira de Histórias é atração a partir das 11h e vai até 1º de dezembro. Vale agendar as quatro últimas apresentações: Brincadeira e história com Rúbia, dia 10, com Rúbia Mesquita; Prosa na praça, dia 17, com Olavo Romano; Histórias de encantamento e cordel, com Olegário Alfredo e convidados. Para fechar a temporada, Contos de Natal, com o Grupo Aletria, dia 1º.


SAIBA MAIS:
literatura oral
Trata-se da mais antiga arte de exprimir eventos reais ou fictícios em palavras, imagens e sons. Os humanos, naturalmente, têm habilidade para o uso da comunicação verbal no ensino e no entretenimento. Muitos elevaram essa habilidade ao nível de arte. Na década de 1970, uma assim chamada "Renascença" da literatura oral teve início nos Estados Unidos e, com isso, muitos narradores tornaram-se profissionais. Daí, foi criada a National Association for the Perpetuation and Preservation of Storytelling (NAPPS), agora National Storytelling Network – Rede Nacional de Literatura Oral. No mundo contemporâneo, a figura do contador de histórias está intimamente ligada ao incentivo à leitura, entretenimento cultural e difusão do folclore regional. E a maneira como é transmitida a história contada também encontra novas técnicas e formas, mescladas a antigas – o teatro de fantoches e de formas animadas, o teatro de bonecos e a pantomima.

Estado de Minas - Jefferson da Fonseca Coutinho - 8/11/12

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