Vincent - Um solo de amor

domingo, 4 de novembro de 2012

Marcello Castilho, o super-herói



Chegado às grandes aventuras, aprendi cedo que super-herói é aquele sujeito de habilidades particulares, de ações em prol do interesse público. Na história, o primeiro de que se teve notícia foi Percy Blakeney, em 1903. Um nobre inglês, mestre do disfarce e das fugas, que, durante a fase do terror na Revolução Francesa, conseguia salvar indivíduos da morte pela guilhotina. Recebeu o nome de Pimpinela Escarlate. Depois veio o Super-Homem, a partir de 1938, e a galeria da ficção não parou mais.

Moleque, sonhador, quis identificar algum sujeito de carne e osso, que, mesmo sem aquelas proezas físicas sem precedentes, preenchia alguns pré-requisitos à minha concepção de super-herói. Tentei que o título ficasse em família. Impossível: imperfeitos demais, não havia no meu sangue alguém acima do bem e do mal. Já crescido, numa sala de estudos da arte, tive contato com um sujeito extremamente curioso: Marcello Castilho Avellar. Um cavalheiro, fumante inveterado, pragmático, de simpatia discreta – imperceptível aos olhares rasos. Mestre que, vez por outra, gostava de mandar beijinhos para os alunos mais legais.

Marcello Castilho já era um velho conhecido das letras. Colega de corredor na redação do jornal Estado de Minas – na época, na Rua Goiás, na Região Central. Lá, até então, jamais havíamos trocado idéia de valor no campo da amizade. Admirável, inacessível à maioria dos “humanos”, o crítico era também colaborador na maior diversidade de assuntos de que já se teve notícia num veículo de comunicação. Contudo, foi no Centro de Formação Artística (Cefar), da Fundação Clóvis Salgado, no início dos anos 1990, que selamos nossa amizade e parceria. Juntos, rodamos Brasil, dividimos o palco e demos boas gargalhadas. Com ele, são intermináveis as lições sobre a arte e a vida.

Melhor amigo, irmão, diretor, professor e jornalista, Marcello se fez exemplo. Um homem livre, de ações em prol do interesse público, de conduta impecável no trato com o justo. O artista-educador, orientador até dos mais soberbos das artes cênicas e do jornalismo em Minas Gerais, pensava e agia com liberdade rara, sem o menor compromisso com os interesses do poder e da prata. No ano passado, em novembro, sem dar conta de sua genialidade, o plano terreno perdeu a sombra de sua estatura. Pequeno, perdi um guia, meu super-herói. Saudades eternas, meu irmão!

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho

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