Van Gogh - Temporada 2017

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Estreia dia 17, no Teatro Marília

segunda-feira, 9 de abril de 2012

O homem que não fazia questão


Batata e os colegas de obra viviam de sonhar com a mulher do patrão. Dona Leonor se aproveitava, já que o marido, Ludovico, há tempos, não era de comparecer entre as paredes do casão em que moravam. A bela e fogosa dona, dos seios fartos e das pernas roliças, gostava tanto de se saber desejada, que não somava semana sem dar as caras na construção. Quando o Ludovico não estava, claro – para não dar bandeira, era ela quem cuidava da agenda do marido, agiota e construtor de ocasião.

A coisa toda teve início numa viagem do Ludovico com um amigo afeminado, colunista social, para San Francisco. Por telefone, ele orientou: “Aqui tá osso. Volto só mês que vem. Você vai lá na obra do Castelo e me pega um dinheiro com o Batata, que ele tá me devendo. É só o juros: R$ 317. Conta direito pra ver se tá certo, hein!?”. Sem filhos, a coroa nunca gostou de se envolver nos negócios do companheiro, muito sistemático. Vez por outra, não tinha jeito. E lá se foi ela para o predinho de quatro andares, em construção.

Leonor estacionou o carrão branco de cabine dupla e desceu absoluta para cruzar o tapume. Os operários chegaram a apertar os beiços para o assovio em coro. Logo que perceberam se tratar da mulher do patrão afetado travaram o sopro. Em roupa de ginástica, coladinha no corpo suado, cabelos grandes, negros, amarrados para cima, com decotão generoso e calça da moda, sem marca de peça íntima, a gostosona caminhou macio. “Isso é que é mulé! Que belezu... Ai, Jesus!!!”, pensou alto o sujeito do último piso, que quase despencou do andaime, com a visão do paraíso.

O Batata não conseguiu tirar os olhos do decote e dos quadris do monumento. “Batata? Seu Batata... Tudo bem?”, quis saber Leonor, charmosa. Ele, aturdido, mandou na lata: “A senhora desculpa, mas é que nunca vi na vida mulé mais gostosa que a senhora! Tá aqui o dinheiro do patrão”. Leonor recebeu o envelope e tentou fazer cara de sem graça. Em vão. Carente de homem, deixada sempre na mão pelo tal Ludovico, a boazuda não conseguiu esconder a satisfação pela sinceridade do almoxarife. Juntou o sujeito num canto de cimento grosso e deu-lhe chave de pernas de cinema.

Daí em diante, generosa, ao menos uma vez por semana, Leonor dá mole na obra para o operariado. Depois do Batata, veio o Agenor, o Lucélio, o Careca, o Jonas, o Elber, o Canarim, o Cabeção e o Zé Maria – aquele que quase caiu do andaime. O predinho do Castelo já está quase acabado. E já tem planta nova aprovada na prefeitura para o lote ao lado. Ludovico, viajante, agiota profissional, está cada vez mais cheio da grana e de trejeitos. Já a mulher, serelepe, decidiu dar de grila o que o marido não faz mais questão.

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho - 9/4/12

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