Vincent - Um solo de amor

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Made in China



Gosto dos chineses. Muito. Não entro no assunto da falsificação ou do contrabando. Menos ainda se os produtos vindos de lá prejudicam o comércio neste ou em qualquer outro país. Não sou economista, empresário e, menos ainda, especialista em comércio internacional. Sou cidadão trabalhador, pagador de tributos, que, aos 8 anos, começou a vender jornais nas ruas para ajudar a família. E é justamente na questão da labuta que me identifico com os chineses.

Do pouco que sei da cultura dos mocinhos e mocinhas de olhos apertados, não receio em dizer: é gente que jamais faz corpo mole. Heng, meu amigo chinês, de 32 anos, é das pessoas mais exemplares que conheço. Diferentemente de muitos brasileiros – que adoram um barranco e uma mamata –, os chineses não fogem à luta. Nisso, eles têm a minha admiração. Não se esforçam por necessidade, simplesmente. E sim, por brio e vocação.

Envergonha-me ver a quantidade enorme de jovens brasileiros, preguiçosos, encostados nos pais, sem se importar com o duro que estes sujeitos dão para não deixar faltar comida e boa educação à mesa. Domingo, fui almoçar na casa do Aldeir, no Bairro Dona Clara. Ele é divorciado e pai de dois marmanjos de mais de 20 anos. Com prazer e alegria, meu amigo passou a manhã na cozinha, preparando o almoço para os filhos e seus convidados.

Violeta e eu ajudamos com as carnes, com a salada e com a massa. Enquanto isso, a juventude, que levantou só lá pelo meio-dia, fervia no videogame. De pernas para cima, à espera de tudo na mão, a tempo e a hora. Caramba. Não pode estar certo. Nem deram as caras na cozinha para oferecer ajuda. Minto. Foram até lá. Para detonar a geladeira e deixar ainda mais sujeira para o pobre do Aldeir limpar.

Aquilo me chateou sobremaneira. Mesa farta, toda arrumada no maior capricho pelo amigo descasado, quarentão e bom pai de família. Calado – afinal, estava na casa dos outros –, imaginei que os marmanjos iam, ao menos, ajudar na limpeza da cozinha depois da comilança. Nada. Nem um copo lavado pelas mãos do futuro do país. Aldeir e eu passamos mais de hora para ajeitar as louças. O amigo insistiu: “Deixe disso, Josiel. Você e Violeta são convidados”.

A gente não podia deixar o Aldeir na mão. Era serviço demais para ele sozinho. Quando terminamos, não dei conta e tive que perguntar: “Seus filhos não ajudam, Aldeir?”. A resposta me fez pensar ainda mais nos chineses. O companheiro, boa praça até, sorriu e disse: “Querem é aproveitar a vida, Josiel. São incapazes de passar uma vassoura na casa. Não peço. Fico na esperança de um dia eles acordarem pra vida. É a juventude de hoje, meu amigo”.

Estamos perdidos. É o que posso crer. Que juventude é essa que não tem noção da importância dos menores gestos de ajuda dentro da própria casa? Heng, amigo chinês em Belo Horizonte desde 2010, ainda não domina o português. Mas soube o suficiente para conversar comigo sobre o assunto na segunda-feira. Disse-me que a falta de atitude assim, como lá na casa do Aldeir, é uma vergonha para o povo chinês. “Todos se ajuda, Josié! Todos!”.

Falou e disse, Heng. Salve a China!


Bandeira Dois - Josiel Botelho - 11/4/12

Um comentário:

Arminda disse...

Concordo,os chineses são um ótimo exemplo para nos brasileiros, parabéns pelo texto! o brasil esta vivendo uma era de "jovens doentes!"