Vincent - Um solo de amor

segunda-feira, 8 de julho de 2013

'Natasha, 27: indecente como a solidão'

Logo que abriu a porta naquela segunda-feira, Vicente Cantareira soube que Natasha não era como as outras tantas que ele conhecia. Contratar meninas de aluguel, ao menos uma vez por semana, para hora de vivência extraordinária estava dando ao velho viúvo, coronel aposentado, noites inesquecíveis. O setentão, colecionador de nomes e de encontros com meninas tristes, havia descoberto nova razão para viver.

– Entre. A casa é sua, Natasha.
– Obrigada, Vicente.
– Você me pareceu triste ao telefone.
– Normal. É que alguns dias são mais iguais que os outros.
– Uma bebida?
– Sim. Algo forte. Pode ser?
– O que você quiser.
– Este está bom. Duplo e sem gelo.
– Vou acompanhar você.
– Tem dias que é preciso deixar um pouco de lado a realidade.
– Esta noite, por exemplo?
– Não me leve a mal... nada tem a ver com você. É comigo.
– Sim. Mas você está comigo e isso, de certa maneira, me envolve...
– É que... é difícil seguir em frente sem olhar um pouco para trás.
– Sei bem como é isso... especialmente, no meu caso, quando o que se vê pela frente é bem mais curto do que o que está para trás...
– Não sei se isso tem muito a ver com o tamanho do que se viveu...
– Tem razão... tem muito mais a ver com “o que” se viveu, não é!?
– Penso que sim... você já teve a sensação de estar sempre no mesmo lugar?
– Quase todos os dias da minha vida, Natasha.
– E isso não incomoda... não o faz menos feliz?
– Depende. Procuro aceitar o presente como um agrado dos dias. E se ele se repete, deve ser vivido com outra boa dose de intensidade.
– Não compreendo...
– Você é muito jovem. Tem uma imensidão pela frente para pensar a respeito.

Vicente vai até o aparelho de som e, como de costume, coloca música antiga para reviver noites de amor com a ex-companheira morta nos anos 1990.

– Dança comigo?
– Sim. Com prazer.

Os dois, em silêncio, trocam passos como velhos conhecidos. Por dois minutos e 45 segundos parecem desejar que o tempo pare. Ao fim da dança, Vicente paga R$ 300 pelo programa e pede foto instantânea para seu mural particular de companhias. Indecência ali, só a solidão.

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho

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