Vincent - Um solo de amor

segunda-feira, 15 de julho de 2013

'Bia, 25: loira filé, BB grande'

A criatividade nas páginas de classificados relax era mesmo de chamar a atenção. Cantareira passava a semana inteira tentando decifrar linha por linha das colunas estreitas do jornal popular. A “loira filé de BB grande” despertou a curiosidade do chef de cozinha. Para o encontro daquela segunda-feira: Bia. No cardápio, às 19h, “Filé ao molho de jabuticaba”. Homenagem à menina de aluguel.

– Bia.
– Sobe.

Quando Bia saiu do elevador, Cantareira já estava com a porta aberta. Gostou do que viu e sorriu para a encomenda. De fato, o bumbum da moça não era pequeno, mas não era aquele exagero duplo e maiúsculo impresso em negrito no anúncio. O velho coronel, setentão e elegante, de bom humor, decidiu fazer graça.

– O seu BB não é tão grande. Você é mesmo a Bia, do jornal?
– Ah… é que emagreci. Quando fiz o anúncio era muito maior.
– Compreendo.
– O senhor quer cancelar o programa?
– Não. De jeito nenhum, Bia. Já que você está aqui… vamos, entre.

A mulher, tímida até, entrou e nem esperou que Cantareira oferecesse a cadeira. Sentou-se desconfiada, com as mãos entre as belas pernas nuas. O viúvo trouxe vinho tinto encorpado, reserva para os dias de programa. Bia não quis. Bebeu água apenas.

– Não bebo em serviço.
– Está certo. Você dirige?
– Não. Ando de ônibus. Já me acostumei. À noite, uso táxi.
– Também não gosto de dirigir. Nunca gostei. Só tem maluco nas ruas. Eles dirigem como se fossem os donos da cidade.

Cantareira busca a travessa luminosa, de prata. Bia sorri ao ver o capricho do velho.

– Você gosta de cozinhar?
– Gosto muito, Bia. É um dos grandes prazeres que tenho na vida.
– Tá com uma cara muito boa.
– Fiz especialmente pra você. Espero que goste.
– O senhor não tem medo?
– Medo?
– É. De fazer amor com a barriga cheia?
– Fazer amor?

O velho não consegue segurar o riso. Ela não entende.

– Por que o senhor tá rindo?
– Desculpe-me, Bia. Mas é que você é a primeira garota que vem na minha casa e fala em “fazer amor”. As outras costumam ser diretas. Adoram um palavrão.
– É que não gosto de palavrão.
– Não faz mal. (longa pausa) Você não me parece muito à vontade na profissão.
– O senhor acha?
– E digo mais: você parece ser boa mãe. 
– Faço o que posso. Tenho um bebê. João. É lindo. Quer ver uma foto?
– Claro. Que idade ele tem?

Bia, tomada de alegria súbita, pega a foto na bolsa de oncinha.

– Não é lindo? Ele faz 10 meses amanhã. O senhor quer ouvir a voz dele? Ele já fala mamãe e vovó. Olhe só…

A loira mostra a gravação no celular com algumas estripulias do bebê grandão. Cantareira fica feliz com a alegria da jovem mãe. Juntos, terminam o filé com gosto, satisfação e cumplicidade. O velho vai até a estante e traz a polaroide.

– Posso?
– O que é isso?
– Uma máquina fotográfica. Gosto de registrar boas companhias. Importa-se?
– Não. Claro que não.

Cantareira faz a foto cheia de sorriso da menina. Pega a carteira no paletó e saca as seis cédulas de R$ 50 pelo programa. Beija a testa da “mulher filé” e agradece. Ela sorri. Parece entender o muito pouco que o velho precisa.

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho

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