Vincent - Um solo de amor

sexta-feira, 26 de julho de 2013

Crianças felizes, homens melhores


“A melhor maneira de tornar as crianças boas é torná-las felizes”, escreveu Oscar Wilde. Sou um sujeito meio atrevido com a psicologia. Um amador, curioso, estudioso do assunto por conta própria. E as crianças não me saem da cabeça. “A criança é o pai do homem”, disse Freud, o pai da psicanálise.

Também sou pai. Criança, fui pai do homem que sou. E tenho três filhos encantadores, donos do meu coração. Portanto, ainda que sem título de pós-doutorado na matéria, homem, sou grande observador. Esquadrinhador por natureza e paixão. Tenho razões particulares para acreditar que a infância pode explicar o sujeito crescido.

Meu pai, o velho Botelho, me ensinou isso cedo. Muito cedo. Vivíamos um inferno em casa, com a ausência da minha mãe. Entretanto, o pai não “deixou o cachimbo cair”, como costumava dizer. “Cochilou, o cachimbo cai, meu filho”. E assim foi. O velho fez de tudo para que seu filho fosse uma criança feliz.

Nada de reclamações ao vento, à direita e à esquerda. O velho nunca foi de reclamar. No rosto, um sorriso de todo tamanho. Sempre! Conheço adultos às avessas que só sabem é reclamar da vida. Crianças infelizes, infelizmente.

Olhar para o meu pai e ver a criança que ele foi tem sido um exercício permanente na minha vida. Especialmente, porque ele, budista, setentão, desde a meia idade, esforça-se ao máximo para cuidar da criança do passado. Um garoto filho de pai severo e ignorante. De muito bom coração, mas absolutamente ignorante, que o ensinou o único modo de ser que conhecia.

O velho Botelho conta passagem que me impressiona: aos sete anos, já trabalhando na roça, recebeu um canivete e um pedaço de fumo de presente do meu avô, que disse: “Tome. Homem que é homem tem o seu próprio fumo”. Era o que o velho, pai do meu velho, acreditava.

Se pensar apenas no fumo, vejo um grande absurdo. Mas, além, bem além, havia uma lição que o Botelho jamais esqueceu: nunca foi sujeito de pedir favores. Honesto como jamais conheci, o velho nunca pediu nada emprestado ou deixou de honrar compromisso algum. Lição do meu avô, ignorante que só ele.

Crianças boas são as mais felizes. Ao longo da vida, no entanto, acredito, podemos mudar o rumo das infelicidades enraizadas quando as percebemos. Tenho pensado muito nisso. Ainda mais vendo tanta gente triste, infeliz porque não dá conta de enxergar e tratar dos males da infância.

Bandeira Dois - Josiel Botelho

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