Vincent - Um solo de amor

segunda-feira, 13 de maio de 2013

"Priscila, 22, linda e liberal"

Depois que o coronel Vicente Bueno Cantareira, viúvo, contratou Brigitte, garota de programa, para jantar e dança apenas, gostou tanto da experiência, que não parou mais. Foi no aniversário de 70 anos, no ano passado. O velho se sentiu tão bem naquela hora com a companhia de aluguel que decidiu repetir a dose uma vez por semana.

Sexo? Não era mais importante. Cantareira havia sublimado o calor do quadril depois que perdera Mercedes, a fogosa companheira de longa data, em 1993. Maduro, o prazer para o coronel Bueno estava na alma. Aos 71 anos, contentava-se com o céu azul e com as noites de estrelas. O médico, amigo, até sugeriu remédio para reacender o entusiasmo. Nada. Cantareira não quis. Agradeceu e mandou ao lixo o papel com a prescrição.

A felicidade dos últimos tempos estava em conhecer bem pouco das mulheres comuns por trás daqueles anúncios em colunas de indecências para adultos. Cantareira esquadrinhava os classificados para escolher a garota da semana, sempre às segundas-feiras. Um ritual: o prato especial para o jantar – feito por ele; a música antiga, rara, para dança de rosto colado e a mulher de aluguel para os 60 minutos de delicadeza.

Manhã de dia de rito. Logo às 6h, com o jornal popular sobre a mesa, o velho leu quadrinho por quadrinho: “Priscila, 22, linda e liberal”, dizia a publicidade curta de duas linhas ao pé da página. “Linda e liberal” não importava ao coronel. Mas, o nome, ainda que de mentira, chamou a atenção do velho.

Priscila era o nome da filha única que Cantareira e Mercedes perderam em tempos de agonia. A mocinha nasceu com doença grave e não completou meio ano de vida. O casal, doído, então, optou por não ter mais filhos. Passado. O coronel não costumava remoer a linha da vida. Orgulhava-se da fé particular no bom coração. Bastava.

Assim, guardou o número do telefone da garota de aluguel, para ligar mais tarde. Como de costume, desceu até o mercado central para a compra da semana. Tomou café da manhã e caprichou na limpeza do apartamento na Região Central. Às 9h, o coronel ligou para a tal Priscila e agendou o compromisso de R$ 300.

À noite, às 19h, recebeu a menina profissional para tratá-la como mulher fina, de família e futuro. Jantaram, dançaram e sorriram juntos. Ao fim da hora de satisfação, o dinheiro combinado, abraço e beijo no rosto de boa-noite. Pela primeira vez, em três anos, Priscila pôde voltar para casa sem tirar a roupa ou fingir alegria.

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho

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