Vincent - Um solo de amor

segunda-feira, 6 de maio de 2013

A traíra da perna grossa


O camarada fez de tudo para salvar o casamento. Faltou fazer curso de vidência e adivinhação para atender os caprichos da traíra ruíva da perna grossa. Ela já estava enrabichada com outro. A moça pisou na bola e esfrangalhou o companheiro. Corno de muletas, acidentado, em flagrante triste de tarde bandida. A dona picou a mula, caiu no mundo com sujeitinho qualquer, deixando para trás marido e filhos. Nunca mais deu notícia.

Desde moça freqüentava o corpo de muitos rapazes. Fogosa, entregar-se era algo quase incontrolável. Já ele, comportado, até gostava de uma farra. Com os amigos. Futebol semanal. Cervejada. Churrascos, em encontros de família. Quando se conheceram foi uma loucura. Ela lhe deu chave de pernas de pirar o cabeção. Cegou o peladeiro. O negócio dele agora era abater a pelada em cama barulhenta, em outro campo de suor e palavrões. Abandonou os amigos e passou a viver no ritmo da serelepa.

Namoro, noivado e, em pouco mais de ano, lá estavam os dois, lindos, de joelhos no altar. Encenação modesta de sentimentos tolos embrulhados em tecidos chiques. Ele, babão, apaixonado, cego e perdido em panelada de sonhos e projetos. Ela, perfeita no papel da mocinha branquela, de família, que quer cuidar de casinha e criar barriguinha. Uma beleza. Os pais da noiva não fizeram economia: festão, farra, música em caixas amplificadas, na voz de cantora contratada. E registro, em vídeo e fotografia, de fazer inveja a muito bacana.

A lua-de-mel foi espetáculo. Teatrinho sexual rídiculo em praia carioca. Na pousadinha modesta, o casal não passava despercebido. Só andava juntinho, em babação infantil: “morzinho” pra cá, “tchutchuquinha” pra lá. Um nojo. Rídiculo, não?! Casalzinho marmanjo, fazendo voz de criancinha!? Tenha paciência! E na praia, indecência: ela fantasiava fazer “amorzinho gostoso” no mar. Num cair da tarde, lá estavam os dois, grudadinhos, dentro d’água, na maior safadeza no chacoalhar da maré. Já voltaram do passeio grávidos. Juravam, em tom retardado, que o espermatozóide valente nadou, sem braçadas, em águas salgadas. Era comédia pastelão ouvir os dois conversando sobre a concepção do bebê.

O tempo passou e a moça destrambelhada liberou a periquita. Com um, dois, três… Corneava sem dó nem piedade o “morzinho” dela. Do casamento, três filhos. A trairagem durou tempo, até que o marido, atropelado no horário de almoço, fraturou a perna e, em muletas, foi dispensado do trabalho. Ao chegar mais cedo em casa, flagrou a “princesinha” infiel na cama com outro. No desespero, quebrou a muleta na cabeça do visitante e botou a mulher para fora de casa. Viveu dias de drama sem fim.

Já a dona ruiva das pernas grossas e do rabo torto foi tentar vida nova no interior com outro sujeitinho qualquer. Paizão, é o moço do chapéu de boi quem cuida dos três filhos adolescentes. Dez anos passados, e até hoje ele sente falta dos carinhos da bandida.

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho

Nenhum comentário: