Vincent - Um solo de amor

sábado, 31 de julho de 2010

Do lado de lá do espelho

Eleutério, o catador de latinhas, costumava passar horas diante do espelhinho velho de bolso. Não que se achasse belo ou coisa parecida – sabia-se bem comum para os miseráveis de meia-idade. O que fazia o sujeito viajar em tudo o que pudesse refleti-lo era aquele encontro mágico com o seu duplo. Era como se pudesse olhar para dentro e se ver do lado de fora.

Aquilo provocava no morador de rua capacidade descabida de amplitude. Homem de pouca sorte com os estudos, suas interrogações iam muito além do quase nada que conhecia. Perdia-se em pensamentos complexos, físicos e filosóficos, que só o outro, no espelhinho, dava conta de compreender. Desentendimentos banais também partiram de seu avesso. Deixar o cigarro e a bebida, por exemplo, foi sugestão do lado de lá a que ele não conseguiu dar ouvidos.

Às vezes confuso, embaçado, às vezes claro, quase transparente, Eleutério começou a gostar tanto do seu outro que resolveu se abrir com o tal duplo. Divertido e atento, passou a emprestar a orelha ao “sopro de voz da boca fechada” – era como nomeou o sussurro que vinha das entranhas. Contudo, Eleutério não era de muita conversa. Faltavam-lhe palavras que dessem concretude às próprias ideias.

E assim, sempre só (s), fez-se melhor amigo de si mesmo. Aprendia com seu outro a sublimar a carência. Fora as necessidades primárias, que o mantinham com um mínimo de saúde, o resto já não lhe fazia a menor diferença. Contentava-se em dormir no chão e contar estrelas. Numa madrugada de pouco sono, fez voto de silêncio porque seu externo entendeu que o planeta estava fora de prumo. Violência, cegueira, miséria e corrupção lhe distorciam a imagem de barba longa, pele e osso.

Se fora o universo rumava em desencanto, por dentro era puro encantamento. A dificuldade que lhe maltratava o corpo engrandecia-lhe ainda mais a alma. Absolutamente desgarrado do passado – tempo em que teve família, emprego e CPF –, Eleutério se sentia pronto para seguir de mãos dadas com seu duplo. Já não dependia de reflexo nem dos olhos abertos para enxergar a si mesmo.

Foi tudo muito rápido, ligeiro como a brevidade da vida. Estava na Avenida dos Andradas, sob o viaduto, a um passo da calçada, quando foi jogado para o alto por bêbado em carro barato. Latinhas espalhadas pelo asfalto, espelhinho de bolso quebrado, Eleutério e seu duplo não ficaram para esperar pelo Samu.


Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho - 31/7/10

4 comentários:

Cacá disse...

O mundo está virando um paraíso da indiferença. Um porto seguro para um só. Isso é um conto que a gente pode chamar de clássico, meu amigo! Bom demais! Abração. Paz e bem.

Dodora Galinari disse...

Jefferson:
Quanto mais leio suas crônicas p/ Vida Bandida,mais me encanto com sua sensibilidade.Que Deus o ilumine,sempre,e lhe traga o devido sucesso por sua competência!
Carinhosamente,Dodora Galinari.

Éder Reis disse...

Que história linda!! "Se fora o universo rumava em desencanto, por dentro era puro encantamento." Acho que sempre haverá uma esperança, depende de como agente enxerga isso! Não pare de escrver nunca. Abraço

Anônimo disse...

Meu prezado Jeff, vc é mesmo um encantador, o mágico da escrita, o artífice da palavra, todos têm o espelhinho do Eleutério e lá o seu portal; acredite, também já usei esses espelhinhos de bolso... e de verdade neles eu via uns bons pedaços meus; acredite mais ainda: desde criança o meu Maltrapilho se chamava Eleotério... com ó...
Parabéns pelo fino de texto Eleutério
Ferdinando