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sábado, 24 de julho de 2010

Dionísio, o carregador de defuntos

Homem de vida dupla – motorista e ator de teatro –, Dionísio não conseguiu trocar plantão de 24 horas em plena temporada. Para evitar que a plateia ficasse na mão, não teve dúvida: estacionou o rabecão com sete presuntos na porta da pequena casa de espetáculo. Sala vazia, quatro pagantes e cinco cortesias. Mal dava para o café. Na polícia, ganhava o pão; com a arte, fazia valer a vida. Aos vinte e tantos anos, quase trintão, não havia o que lhe dava mais felicidade. Só sexo e chocolate para lhe dar tanto prazer. Vinho também: Dionísio era chegado numa festa. Contudo, seu negócio era o rito do palco. Sob as luzes, agigantava-se, virtuoso.

Artista amador desde garoto, decidiu se profissionalizar. Queria dar basta ao teatrinho raso, tão comum nas suas rodas cheias de graça. Procurou escola séria, na Praça da Liberdade, e gostou da doçura das duas secretárias. Também se entusiasmou com a fala macia do homem magro, alto, de barba, que estava do outro lado do balcão. “Parece mais dom Quixote”, pensou, encantado por Cervantes. Motivadíssimo, desceu a caneta na ficha de inscrição. Orgulhoso – emocionado até –, sorriu ao ver aquele movimento no corredor. Sentiu na pele contraste interessante: acostumado com os cadáveres no saco escuro, gostou de ver povo feliz vestido de preto.

Querido entre os companheiros de polícia, negociou escala de serviço para ter livres as noites das segundas, terças e quartas-feiras. Dias de estudo. Vez por outra, apenas, o esquema falhava. Aguerrido, dava seu jeito – já que estava decidido a não faltar às aulas. No primeiro encontro, com sala lotada, mandou logo recado para que todos soubessem: “Não estou aqui para ver qual é, professor. Quero o teatro para toda a vida”. Outra gente obstinada também falou com paixão. Mas em ninguém havia tanto brilho no olhar como em Dionísio. Ao longo de todo o curso, fez-se sempre presente, enquanto meia dúzia pingada e medíocre vacilava por preguiça ou absoluta falta de noção.

O trabalho com mortos de toda sorte e idade fez de Dionísio um sujeito raro. Conhecedor da brevidade da vida, aprendeu respeito com os segredos do silêncio. Por conta própria, observando homens de verdade em resgate, decifrou a disciplina que salva e faz diferença. Pertencia, humilde e soberbo, à força do empenho e da união dos que somam para dividir em igualdade. Na turma de jovens intérpretes em exercício, por obra do que é mais natural, Dionísio deu exemplo. Líder, levou adiante projeto de peça de formatura com dedicação que entrou para a história da instituição. Convenceu mestres e arrebatou seguidores.

Diplomado em arte, dinheirinho era pouco. Com o tempo, cada vez mais dedicado, Dionísio manteve vida profissional paralela para honrar os compromissos. De dia, seguia a viver recolhendo seus mortos. À noite, embevecido, nos braços da plateia.

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho - 24/7/10

4 comentários:

Cacá disse...

Se for ter uma montagem de uma peça do Dionísio, avise logo. Uma história dessas é garantia de casa cheia! MARAVILHA! P.S: Jeffferson, não sei se você já viu , há um blog muito legal, chamado mulhernapolicia.blogspot.com e eu a considero um talento raro para as artes trabalhando como investigadora. Vale a pena conferir. Um abraço. Paz e bem.

Mulher na Polícia disse...

Esse é o famoso bico.
Mas um bico em grande estilo.
Em grande elenco.
: )

Bjo.

cibele disse...

Muito bom !! E a inspiração .. foi fantásticaaaa !! Parabéns!!

cibele disse...

Muito bom!! E a inspiração .. fantástica!! Parabéns pelo texto!! abraços