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segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Manoela e os cinco rebentos


Manoela veio de longe para rever o marido, Rosevaldo, condenado a 9 anos de prisão por tráfico de drogas. Foram mais de 12 horas de ônibus, das quais, duas de estrada de terra, para chegar até o presídio na Região Metropolitana de Belo Horizonte. A salgadeira deixou as cinco crianças pequenas em casa, com a sogra, dona Mercedes, adoentada. Juntou trocados, colocou uma troca de roupa na bolsa de plástico barato e veio olhar fundo nos olhos do marido caminhoneiro. No portão, à filha mais velha, Mariana, de 9, recomendou: “Cuide bem da sua vó e dos seus irmãos. Mamãe não vai demorar”. Beijou-a na testa, como de costume. Na estrada, não pregou o olho.

Manoela chegou bem antes da hora da visita. Ajeitou-se na calçada, encostada no muro de chapisco, com a bolsa e a garrafinha de água mineral no colo, e esperou pelo giro dos ponteiros. O inchaço dos pés esticava as tiras de couro da sandália rasteirinha. Pouco a pouco, do outro lado, fila de familiares e amigos começava a se formar. A salgadeira tomou lugar sob o céu escuro, carregado. Passou pela revista da agente da mão boba e pesada e seguiu para, depois de seis meses, enfim, encarar o pai dos pequenos João, Roberto, Hudson, Rodrigo e Mariana. Frente a frente, ela segurou o choro:

– Pálido.

– Aqui, é só chuva… E as crianças?

– Tão bem. Mariana já tá bem mocinha… Tá tomando conta da casa.

– E a mãe?

– Tá se recuperando. Já tá comendo sozinha. Outro dia, até reconheceu o Nem. Só não quer conversa. Fala o seu nome até quando tá dormindo.

– Diz pra ela que eu tô bem. Que não vai demorá eu tô saindo desse inferno. Tem uma advogada nova aí: doutora Alessandra. Ela já veio aqui, conversou comigo… Tá estudando a minha situação. É bem diferente daquele barriga de bosta que me deixou vir pra cá.

– A gente não tinha muita coisa, mas não faltava nada... Por quê?

– Não sei do que você tá falando.

– Sabe sim. Daquela droga toda que tava com você no caminhão. Nunca te perguntei nada… Mas, por misericórdia, pelo amor que você tem pelas crianças, pela sua mãe, eu preciso saber… Por quê?

Rosevaldo não respondeu. Talvez porque não tivesse o que dizer, talvez por vergonha – quem vai saber? Manoela voltou no mesmo dia para o interior, no Vale do Jequitinhonha. Mais 12 horas de estrada, sem sono, para repensar a própria sorte e o futuro dos cinco rebentos.

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho

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