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segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Bela, profunda e efêmera


A vida é um sopro. A morte da advogada, atriz, voluntária e contadora de histórias Maria Lúcia dos Santos Miranda, assassinada em casa, no Bairro Carlos Prates, na Região Noroeste de Belo Horizonte, na semana passada, é golpe duro para qualquer cidadão de bem. Para familiares e amigos, então, conhecedores da alma de encantos de Maria Lúcia, é ferida de dor doída, irreparável. A notícia triste chegou cortante, três dias depois do crime – latrocínio, ao que as evidências indicam –, por meio de mensagem nas redes sociais. Na quarta-feira de cinzas, na redação, pela manhã, ouvi companheiros na pauta trágica de caso de assassinato de aposentada. Em outra missão, deixei a notícia de morte de lado para dar conta de assunto mais ameno.

Na sexta-feira, à noite, em texto de duas linhas, moça muito querida, de coração partido e cheia de futuro, deixa o recado triste. A aposentada, de 70 anos, estrangulada, com hematomas no peito e pancada na cabeça, nas últimas horas de carnaval, era a boa atriz Maria Lúcia Miranda. Um choque de emudecer e fazer voltar o passado. Lembro-me bem da doce senhora, artista, companheira de set de minissérie para TV, rodada em Piranga, na Zona da Mata mineira. Nos ensaios, era a mais doce, a mais atenciosa com todo o grupo, cuidadosa com o lanche – para que ninguém da trupe sentisse fome. De leitura madura, cheia de nuance, Maria Lúcia deu pouco ou nenhum trabalho para Elvécio Guimarães, o veterano preparador de elenco.

Da preparação às filmagens foram poucas semanas. Tempo suficiente para ser arrebatado pela mulher generosa, cheia de carinho e histórias. Na vida, são muitas as curvas e esquinas. Nas bifurcações, encontros e desencontros vêm e vão ao tempo das marés. Em nós, um mundo paralelo das boas lembranças que não permitimos dissolver. O efêmero tempo de Maria Lúcia Miranda em meu caminho é dessas lembranças que guardo para sempre. Desolado com a crescente violência – capaz de silenciar pessoa de bem, comprometida com ações sociais – deixo, hoje, amigo leitor, registro de indignação e homenagem à mulher, artista de bom coração, que trabalhou muito para tentar resgatar sujeitos de pouca sorte – como o infeliz que lhe roubou a vida. À família, os meus mais profundos sentimentos.

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho

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