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terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

E o Fumaça virou pó

Cobertura no Belvedere; carrão importado, do ano, sempre; roupas das marcas mais caras, internacionais; o bacana era o tal. Na noite, só circulava em lugar fino, pelas bandas da Praça Marília de Dirceu, no Bairro de Lourdes. De cara e sobrenome arroz de festa nas páginas mais chiques dos grandes jornais, o sujeito era “o cara” para a alta sociedade de Belo Horizonte e Região Metropolitana. Aqui, em homenagem ao dramaturgo Plínio Marcos, vamos chamá-lo de Fumaça.

Traficante de beiço fino, cheio das boas relações entre os viciadinhos, filhinhos de papai, e amparado por dinheirinho farto e fácil, o Fumaça vivia rodeado de amigos. Era só dizer o tipo e nome do bagulho que ele dava jeito. Na faculdade, fingia estudar. No entanto, seu talento estava em outras paradas. Era especialista em arrebatar novos “fregueses” nas festinhas que frequentava. Baladeiro, comia geral – até a bichinha colunista social. O bonzão era o diabo.

Fumaça começou cedo no crime, ainda menor, num final de ano na Região dos Lagos, no Rio de Janeiro. Lá, em 2001, nas baladas à beira-mar, fez amizade com gente da pesada. Garotão popular entre ricaços, cheio de ambição e sem juízo, foi prato cheio para a turma das bandejas. Virou “representante de responsa”. Em três anos, fez fortuna nas barbas dos pais – ocupados demais com os negócios no exterior. Numa tarde acinzentada, a casa caiu para o Fumaça.

Foi em batida da Polícia Federal, na BR-040. O jipão BMW vinha de Angra dos Reis, depois de fim de semana de festa. Estava às margens de Juiz de Fora. No carrão, malocado em fundo falso, havia uns restos da farra: meio quilo de cocaína e 5 mil comprimidos de ecstasy. Na companhia de bela mulher e casal de amigos, cúmplices, Fumaça foi parar no xilindró. Não teve papai nem mamãe para ouvuir o choro do moleque. Menos ainda pistolão de gravata para aliviar a barra.

Réu primário, com criminalista pago a peso de ouro, Fumaça pegou nove anos. Com três, quem sabe, poderia sair de cara limpa. Na cadeia, o mocinho milionário desceu ao inferno. Caiu em cela com desafeto de seu principal fornecedor. O castigo já estava armado. Perdeu a pose e meia dúzia de dentes logo na primeira surra. Levou tanta porrada que foi acordar na enfermaria. Na volta, conseguiu cela com grupo mais ameno. Aos poucos, Fumaça se ajeitou no lugar.

Em visita depois do espancamento, a mãe quase não reconheceu o garotão. Careca, desdentado, era imagem de terror. Apesar da dinheirama, demorou para que o pai pudesse mobilizar contatos e transferir o filho para penitenciária menos dura. As primeiras semanas na gaiola fizeram com que Fumaça repensasse a vida. Os dois anos seguintes não foram diferentes. O moço fez planos e traçou novo rumo com tudo o que viu e sentiu em noites intermináveis.

Ontem, foi dia de retomar a liberdade, em condicional. Mas nem chegou a colocar os pés na rua. Fumaça amanheceu morto em cela vazia. Enforcado por corda de lençol encardido.

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho

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