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quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Lúcia, a poeta errante


A pequena barraca verde, armada na Avenida Álvares Cabral, ela diz que foi presente de coronel da Polícia Militar. Antes, era “mansão de papelão”, aglomerado de caixas velhas. Lúcia, sem destino, documento e sobrenome, é habitante temporária do metro quadrado mais caro de Belo Horizonte, no Bairro de Lourdes, na Região Centro-Sul. Não está só. Divide o canteiro central com o quarteto Susi, Pirata, Piratinha e Pequeno Vagabundo. São os cães, segundo ela, “a felicidade mais sincera de toda a vida”. Vinda de “lugar qualquer” do Norte de Minas, Lúcia revela-se andarilha em Belo Horizonte já há muito tempo. Diz-se com 53, 54, “não sei”, 55 anos. Em Lourdes, na “terceira árvore” como endereço, diz estar desde 2010.

Lúcida, a moradora de rua fala de filosofia e elege a biblioteca pública o melhor lugar da cidade. De olhos verdes, magra, corpo e roupas surradas pela sorte, Lúcia impressiona pelo discurso articulado: “O manto não faz o monge. A minha roupa suja não significa que eu vou te fazer mal. Às vezes é ao contrário… posso até te fazer bem”. A moradora da “terceira árvore” faz quebra-cabeças de poucas peças em papelão, que, embalados, são vendidos por R$ 2. Em dezembro, um comprador retribuiu o trabalho feito a mão com cesta de Natal e poema. Entre os poucos guardados em sacola de plástico, ela retira a homenagem plastificada:

“Seu nome é Tereza, Lúcia ou Conceição?/Uma mulher aborda-me ao sinal/Sou princesa, moro ali. Um castelo legal/feito de bom papelão, sonha seu coração”. Lúcia sorri, contente. Pede com os olhos para a visita, na rua, seguir leitura: “Oferece um quebra-cabeças por R$ 2/Nele eu encontraria a palavra ternura/Digo que passo depois, seu sorriso se esvai/Nos olhos perdidos, ferida da vida sem cura”. Embevecida, a musa, espera pelas últimas linhas: “No quebra-cabeças exposto na mesa/tento encontrar a palavra que ouvi/Consegui forma um ‘T’, singela beleza!/Mas, ternura foi nos olhos dela que vi”. Edson Cruz, o poeta, assina.

“Tá faltando isso no mundo: fazer o bem sem olhar a quem”, reclama. Lúcia diz não sofrer com a vida na rua. Para a mulher errante, o que dói é o olhar de preconceito do outro. “Esse é um mundo feio que mede o outro pelas roupas ou pelo bem que ele tem. Falta humanidade. A felicidade não está nas mansões de concreto. Está no que a pessoa tem no coração”, ensina. Sobre a paixão das horas vividas nas bibliotecas públicas por onde passa, Lúcia diz que está nos livros a liberdade absoluta do indivíduo. “Na escrita, escritor, é onde não temem o meu cheiro ou as minhas roupas. Sou diferente. O olhar é alma”, pontua, profunda.

Fotos: Leandro Couri/Em/D. A Press

Bandeira Dois - Josiel Botelho

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