Vincent - Um solo de amor

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Jantar para dois


Amor de verdade o Vicente teve só pela Mercedes. Coronel reformado da Polícia Militar de Minas Gerais, o veterano da lei e da ordem jamais conseguiu gostar de outra mulher. Viúvo no dia em que completava 50 anos de vida, sem filhos, Vicente jurou diante do corpo da mulher não arranjar outra companheira. Cinquentão, cheio de saúde, pretendentes não lhe faltaram. Contudo, Vicente se manteve firme na decisão de morar sozinho até que a morte o levasse.

Por 20 anos, o Vicente não recebeu nem os amigos em seu apartamento na Região Central de Belo Horizonte – imóvel decorado pela mulher, Mercedes, nos bons tempos de vida e saúde. A rotina de solidão parecia não incomodar o coronel. Às 6h, já de pé, hora de ir até o mercado para buscar o jornal, o pão e as verduras do dia. Para ajudar a passar o tempo, o aposentado tomou gosto pela cozinha. Depois da leitura do impresso – da primeira página aos classificados –, Vicente assumia a cozinha e fazia pratos incríveis, acreditem, para ele apenas. E, assim, seguiam os dias.

Na manhã do aniversário de 70 anos, o coronel foi ao mercado como de costume. Já em casa, durante a leitura do jornal, Vicente foi tocado por pequeno anúncio. Decidiu quebrar a rotina da viuvez e arranjar companhia para a noite. Ligou para o número do classificado e combinou programa com uma tal Brigitte. “Moça solitária, delicada, de família” – dizia o papel. Por R$ 300, o coronel tratou de dar novo rumo ao momento. Retirou do guarda-roupa o melhor terno e preparou-o para o encontro. Também separou o melhor vinho da pequena adega para a ocasião.

Na cozinha, caprichou no preparo do prato fino, francês, aprendido em livro chique de gastronomia. Ajeitou alguns móveis – sem tirá-los do lugar – e deu nova vida à sala de visitas. Fez a barba e banhou-se demorado, como há muito não fazia. Vestiu a roupa alinhada e esperou pela hora do compromisso. Pontual, pelo interfone, Brigitte anunciou a presença. Da portaria ao 15º andar, um pulo. Não demorou para a moça de olhos grandes, vestido e batom vermelhos, de corpo magro, ganhar a porta. Feliz, Vicente tratou-a com a delicadeza que costumava tratar Mercedes.

Elegante, convidou-a para jantar. Os dois não foram de muitas palavras. Comeram, beberam o bom vinho chileno e dançaram a música antiga – “Tão somente uma vez”, com o Trio Irakitan, grupo predileto do coronel. Ao fim da canção, Vicente abraçou a contratada com carinho sincero. Beijou-lhe a testa e agradeceu: “Obrigado”. O relógio ainda não tinha pontuado 22h, quando o coronel sacou do bolso o dinheiro e entregou-o a mulher. Ela, sem entender, quis saber: “O senhor não vai querer...?” O velho respirou fundo e sorriu: “Já matei um pouco da minha saudade, menina. Boa noite!”.

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho

Nenhum comentário: