Van Gogh - Temporada 2017

Van Gogh - Temporada 2017
Estreia dia 17, no Teatro Marília

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

“Talita, 39. Jóia rara”

Não que Cantareira não se alegrasse com as mais jovens. Alegrava-se. Mas felicidade mesmo o setentão tinha com as meninas de aluguel na casa dos 40. Quando o coronel viúvo viu o anúncio da tal Talita nas páginas dos classificados relax, não teve dúvida. Era ela a escolhida para aquela noite de segunda-feira. Combinou os R$ 250 e esperou. Às 19h01, a encomenda:
 
– Talita.
– Sobe.
 
Seguramente, ainda que em excelente forma, vestida de verde-moleca, a mulher beirava os 50. Os 39, assim como o nome no anúncio, eram fantasia. Um desejo natural das meninas, maiores, do ramo de brecar a soma das horas. O velho sorriu ao identificar as riscas do tempo nas mãos de Talita. Dentes repostos, de porcelana, feitos à mão. Botox nas esquinas da face e muitas histórias no coração. Talita, ao tomar conta da sala, se apresentou com uma frase que encabulou o coronel:
 
– Sou uma mulher de família, moço.
– Ah... Sim. Bem-vinda, Talita.
– Digo logo de cara que sou de família para evitar constrangimento. Como disse no telefone, não topo qualquer parada. Não digo palavrão, não beijo na boca e não fico de costas. Faço papai e mamãe e sou boa de conversa. Posso ficar? São R$ 50 pelo táxi.
– Aqui você não vai precisar fazer nenhuma extravagância, Talita. Dou minha palavra. Sou inofensivo. Um monge... pode-se dizer.
– Tipo Buda?
 
Cantareira riu. Começou a achar graça naquela figura exuberante com cara de gente de verdade. Serviu vinho, trouxe petiscos para a mesa e colocou música antiga da sua coleção de “Boleros para sempre”. Talita, pouco a pouco, foi se sentindo segura na presença do velho.
 
– Você me parece legal. É que tem cada tipo que aparece, que a gente tem que falar no telefone e no local o que a gente não faz e o que a gente faz. Ainda mais no meu caso, que trabalho sozinha... sou autônoma. Tem colega que vive dizendo que vale a pena investir na internet, no site, que é mais seguro... mas sou das antigas, não gosto desse negócio de computador não.
 
– Você disse que é uma mulher de família...
– Sim. Tenho filhos, marido e tudo. Até cachorro a gente tem. Três. Mel, Rex e Pingo.
– E o seu marido não se importa?
– O Zé? Não. O Zé é tipo Buda também.
– E os seus filhos... eles sabem?
– Não. Já pensei em contar depois que eles ficaram maiores... mas o Zé e eu, a gente achou melhor não dizer. Não precisa, né!? São dois. Um menino e uma menina. A menina está estudando inglês na Irlanda.
– Em Dublin?
– Sim. Ela é muito inteligente. É lésbica. Está casada com a “ferrugem”, eu chamo ela assim porque ela é ruiva e toda pintadinha... Já o menino, é carreteiro... vai ser pai agora pela segunda vez.
– O seu marido trabalha, Talita?
– Já trabalhou muito. É aposentado. Ficou entrevado depois que um poste caiu em cima dele lá na nossa cidade.
– É perto de Belo Horizonte?
– Não. É bem longe. Fico 15 dias aqui e sete lá. Já tem uns cinco anos que faço assim. Também já trabalhei no Rio e em São Paulo.
– Posso fazer uma foto sua?
– Foto? Pra quê, moço? Mexe com isso não.
– É um capricho antigo. Gosto de registrar as companhias que melhoram a minha vida.
– Acho melhor não...
– Dou a minha palavra que ninguém vai ver a foto.
– Pelada?
– Não. Quero apenas uma lembrança do seu sorriso.
– Esse sorriso custou caro, viu moço. Foi um dentista lá em São Paulo. Quanto você acha que me custou o tratamento? Troquei todos os dentes da frente...
– Não faço a menor idéia, Talita...
– Caia pra trás... R$ 40 mil. Ralei muito pra juntar esse dinheiro.
– Imagino.
– Uma foto só, hein!?
 
Cantareira disparou a câmera e guardou Talita, que recebeu os R$ 250 e não discutiu o programa sem indecência. Ela ainda pediu o resto do jantar – risoto de beterreba com bolinhas de bacalhau – para dar ao amigo morador de rua.
 
Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho

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