Vincent - Um solo de amor

domingo, 18 de agosto de 2013

“Babi, 27. Só para os fortes”

O anúncio atrevido provocou Cantareira. O viúvo acertou o programa para às 19h. Nem discutiu o preço: R$ 500. O bom salário de coronel aposentado bancava a satisfação das segundas-feiras, com jantarzinho caprichado em encontro reservado, em casa. A encomenda chegou em cima da hora.
 
– Babi.
– Sobe.
 
Linda. Pele bem cuidada, cabelo ruivo iluminado, corpo natural sem retoque ou forjado nas academias. Havia até uma barriguinha charmosa, à mostra, sob a blusinha transparente. A mulher sorriu ao ver o velho na porta.
 
– É chope.
– O que?
– A barriga. Posso entrar?
– Claro.
– Desconcertei você...
– De forma alguma.
– Vi que você olhou pra minha barriga.
– É bonita.
– Também acho.
– Uso o piercing pra dar um destaque... gosta?
– Sim. É uma gota?
– De brilhante. Presente de caso aí.
– Interessante.
– E da tatuagem? Gosta?
– Duas asas... são lindas.
– Fiz quando tinha 18. Quis dizer pra minha família que quem mandava no meu corpo era eu. Que era livre pra voar...
– E voou?
– Sim. Pra bem longe.
– Mas não fiz mais nenhuma tatuagem. Ficou comum. Hoje, qualquer um risca o corpo à toa. Em mim, perdeu o sentido. Não é um vício.
– Entendo.
– Bonito seu apartamento... Gosto de tudo o que é antigo.
– Então você vai gostar de mim.
– Quantos anos você tem?
– Setenta.
– Não parece. Não digo isso para agradar... Não sou desse tipo. É que não parece mesmo. Eu diria, no máximo, sessenta.
– Nesse caso, agradeço, simplesmente. Não vou dizer que é generosidade da sua parte para não ofender você...
– Então, não diga. Vinho bom esse...
– É argentino...
– Eles são bons com uvas e com carnes...
– Sim. Tem também o Papa. Parece bom moço.
– E o Messi. Eles também sabem tudo de futebol. Vou dizer uma coisa... Vicente... É Vicente, não é!?
– Sim. Vicente Cantareira, Babi.
– Torço para a seleção da Argentina. Sempre torci. Desde pequena. Acho o brasileiro muito metido a besta com o futebol. 
– Muitos são.
– Namorei um jogador que se achava. Mandei ele catar coquinho pra deixar de ser besta.
– Ele deve ter sofrido muito.
– Sofreu foi pouco. Até hoje o infeliz, casado, fica na minha cola.
 
A conversa rendeu. Jantaram, dançaram e ao fim da última faixa do disco de “boleros para toda a vida”. Cantareira trouxe a máquina polaroide para eternizar Babi.
 
– Posso?
– Foto? Claro... Deixa-me ajeitar o cabelo...
– Não precisa. Você está muito linda, assim... com o cabelo solto.
– Pronto.
– Se quiser, deixo você fotografar a minha barriga...
– Não precisa... tome.
 
Cantareira, feliz da vida, pagou os R$ 500 pela hora. Babi não entendeu o dinheiro fácil – pelo jantar, pela dança e pela foto, apenas. Sorriu, entretanto, sem forçar o programa. Beijou a boca do velho e foi embora, deixando o perfume e um sorriso no papel brilhante.

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho

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