Vincent - Um solo de amor

terça-feira, 13 de agosto de 2013

“Sofia, 33. Decifra-me ou te devoro!”

O anúncio nos classificados relax trazia o desafio da Esfinge de Tebas, que, na Grécia antiga, eliminava aqueles que se mostrassem incapazes de responder a um enigma: "Que criatura tem quatro pés de manhã, dois ao meio-dia e três à tarde?". Como Édipo, Cantareira, o viúvo, sabia bem: "É o ser humano! Engatinha quando bebê, anda sobre dois pés quando adulto e recorre a uma bengala na velhice". Sofia, a grega, por R$ 800, estava pronta para devorar o coronel aposentado naquela noite de segunda-feira.

– Sofia.
– Sobe.

Vestida em cores quentes, a menina de aluguel ganhou o andar do prédio antigo da Região Central com seus saltos da moda, de última altura. Deixou rastro de cheiro doce e venceu o apartamento de Vicente Cantareira. Com a segurança a dois que só a amizade é capaz de promover, Sofia tomou conta da sala. Deixou a bolsa sobre o sofá e desfilou pelo ambiente de decoração antiquada. Depois de fazer o reconhecimento do espaço, a puta de luxo respirou profundamente na janela com vista para o concreto das ruas.

– Isso aqui não muda.
– Você já conhecia o prédio?
– Muito. Passei a infância aqui, no andar de cima.

Cantareira demorou a reconhecer a filha do vizinho morto. Heitor, o grego, outro velho solitário do residencial havia morrido há quase dez anos.

– Não pode ser... Você é a Sofia, filha do Heitor...
– Sim. Porque a surpresa?
– Porque as garotas dos jornais costumam mudar os nomes...
– Bobagem.
– A gente é o que a gente é. O nome é apenas um nome.
– Um nome diz muita coisa...
– Mas também pode não dizer nada... Meu pai gostava disso aqui. Ficou no apartamento dele até morrer. Passei muitos anos fora...

– Sim. Eu sei. Em Atenas. Você morou com os pais da sua mãe. Seu pai falava muito em vocês duas...

– Acho que ele nunca aceitou muito bem a separação. A verdade é que a mãe nunca gostou dele. E quando decidiu ir embora e acabar com o casamento...

– Foi um golpe duro demais. (Pausa) O Heitor sempre falou com orgulho de você: advogada, formada na Grécia. Não podia imaginar nunca você...

– Garota de programa? Mais uma bobagem. As meninas de aluguel guardam segredos secretos demais até para um homem vivido como você. Tem o estereótipo, é verdade. Mas há também muitas particularidades nos classificados de acompanhantes.

Cantareira, setentão, vivido e cheio de histórias não podia imaginar o jantar com a filha crescida do Heitor, vizinho solitário. Beberam, comeram e dançaram música antiga com alegria. O viúvo, como de costume, segurou o que vai além da vontade. Depois da foto instantânea para o mural das lembranças pagas, quitou os R$ 800 pelo programa sem intimidades. Sofia não discutiu sexo nem insistiu indecência. Sumiu no corredor, simplesmente, de cabeça erguida e sem olhar para trás.

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho

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