Vincent - Um solo de amor

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

'Kika, 25. Modelo e puta'

Cantareira escolheu a moça do dia sem pestanejar. Nos classificados relax, em preto e branco, havia até foto produzida, pequeninha. Logo abaixo, um endereço eletrônico, “com mais imagens de tirar o fôlego”, ofertava o papel jornal. Nada de links para internet. O velho coronel queria conhecer Kika pessoalmente, no tête-à-tête. E estava disposto a pagar com gosto os R$ 400 pelo programa.

- Kika.
- Sobe.

Ela subiu. Vestido vermelho, curto, colado no corpo suspenso pelo salto alto preto – naquela altura, ela, com mais de metro e oitenta. Boca carnuda colorida de vermelho, cílios destacados nos olhos negros em sombra azul. Uma pintura. Cantareira engoliu a seco com o calor da juventude abaixo do umbigo. Kika, gostosíssima, entrou no apartamento disposta a arrebatar o sujeito.

– Oi. Agora, a gente pode se apresentar direito… por telefone é tão frio… e pelo interfone, gelado… “sobe”. Falta de graça. (pausa de sorriso e malícia). Sou a Kika. Estudante de relações internacionais e modelo nos tempos que me sobram…

– Modelo?

– Sim. Modelo. Faço fotos para campanhas publicitárias de um montão de coisas. Não aqui. Em São Paulo. Essa cidade é uma roça. Fico aqui só por causa do meu pai, que tá doente e precisando de mim.

– Bonito gesto o seu. Conheço muitas pessoas que não ficariam nessa roça por causa do pai.

– Gosto dele. Foi infeliz a vida toda. Quando foi largado pela minha mãe, quase morreu de desgosto. Agora, por causa de um AVC no ano passado, vive de cama e não parece querer mais se comunicar com o mundo. Mas, vai entender, sorri quando eu estou perto. É o que me faz ficar aqui.

– Quantos anos tem o seu pai, Kika?

– 71. Quer dizer… ele ainda não tem 71. Vai fazer, se Deus quiser. Em dezembro.

– Também tenho 70. É uma idade bonita de se ter, pode acreditar.

– Mas você tá enxutão… Meu pai parece que é seu avô. Tá muito acabado ele. Foi muito judiado pela vida. Começou a trabalhar criança na lavoura. E quando cresceu foi só desilusão. Foi casado duas vezes e acabou abandonado as duas vezes. Achava que não podia ter filho, aí eu nasci… do último casamento.

– E porque você está nas páginas dos jornais? Quer dizer… podia passar mais tempo com ele… Digo isso, Kika, sem querer ofender você…

– Não me ofende. Também fico me perguntando isso quando saio para trabalhar. Os programas para mim são trabalho. Gosto do que faço e preciso sair um pouco para viver a minha vida… é muito sofrimento na nossa casa. (pausa) Não sou triste. Quer dizer… não gosto de ser triste. Mas ele pode ir embora a qualquer momento… e a minha história é outra, não posso depender dele… tem que continuar. Penso assim.

– Entendo. Você não tem namorado?

– Namorada. (pausa para a falta de graça e acender o cigarro) Já tive. Mas tô tirando um tempo pra mim.

Kika e Cantareira beberam amizade. O velho pediu para fazer foto, registro do encontro. Ela sorriu para a câmera polaroide e guardou o pagamento pelo programa. Como as outras meninas do mural de lembranças de Cantareira, Kika partiu feliz por não ter tirado a roupa.

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho

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