Vincent - Um solo de amor

segunda-feira, 4 de março de 2013

A menina bailarina

A filha de Gracielle sonhava ser bailarina. Desde garotinha, Bianca vivia na ponta dos pés. Para a pequena das pernas longas, a dança é a metade da razão de viver. A outra metade é a mãe, mulher de pouca sorte, para quem ela sempre fez tudo. Quando o pai abandonou o lar para morar nos Estados Unidos com a melhor amiga da família, foi a mocinha – na época, com 8 anos – quem melhor cuidou da dona de casa. Tia Iolanda, vizinha de frente, esteve por perto para ajudar a sobrinha a manter a casinha de fundos em paz.

O abandono do marido, Eduardo, foi golpe duro demais para a psicóloga. Logo que teve Bianca, Gracielle foi convencida pelo companheiro a largar emprego de futuro para cuidar melhor do rebento. “A gente não precisa de dinheiro, amor. A menina precisa é da mãe, dentro de casa”, disse o homem. Eduardo, taxista, mostrou na ponta do lápis para a mulher que com o salário que ela ganhava era mais negócio ficar em casa do que pagar escolinha. E assim foi. Até que o camarada infiel decidiu “ganhar a vida na América”, na companhia da amante, cozinheira.

Gracielle adoeceu quando soube da trairagem. Quem contou tudo foi Iolanda, a cunhada, revoltada com a atitude do irmão. Já era tarde da noite: “Tenho que contar porque não tá certo e ele está morto para mim. O Dudu não foi sozinho… foi com a desgraçada da Amanda. Eles são amantes. Amantes!”. Bianca estava acordada e ouviu tudo. Amanda era figura das mais presentes naquele endereço. As três – Gracielle, Iolanda e Amanda – cresceram e estudaram juntas nas salas de aula do Estadual Central.

Os dias seguintes foram de tristeza profunda para a dona de casa, revoltada. Por amor à Bianca, a psicóloga até reuniu forças para seguir. Batalhou emprego e conseguiu algumas oportunidades, mas, com o coração ferido, Gracielle não dava conta de nenhuma ocupação profissional. Iolanda, comerciante bem sucedida, não deixava faltar nada para as duas inquilinas queridas. Desempregada, Gracielle fazia questão de levar e buscar a filha no balé.

Na escola, a psicóloga passava o tempo dos ensaios num canto, do lado de fora do salão, ouvindo boa música vinda da janela. Cinco anos corridos, Amanda voltou dos EUA para ver a mãe com câncer. Eduardo ficou em Nova Iorque, cuidando dos filhos Lucas e Matheus, gêmeos, de 2 anos. Já era noite, quando, na saída do Hospital das Clínicas, na Avenida Alfredo Balena, Gracielle esperou Amanda para descarregar ressentimento e revólver 38.

Dia de visita, presente feito à mão, na cela, e novidade na penitenciária de mulheres: mãe e filha matam a saudade no pátio. Na próxima semana tem estreia da companhia de dança de Bianca, que esta semana faz 15 anos. Sonho antigo, de menina: apresentação no Grande Teatro do Palácio das Artes. Mamãe não vai poder estar na plateia.

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho

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