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segunda-feira, 11 de março de 2013

A gata baladeira


Quem melhor quer saber de Melissa, a Mel, de 26 anos, depois da condenação por tráfico de drogas, é a irmã de criação, de 17. Luiza, tomada por amor ainda maior, não quer arredar o pé da penitenciária nos dias de visita. Toda semana a menina marca presença com agrados de carinho para a irmã. Os pais das duas, separados, sem rumo ou estrutura, vivem de outras urgências doídas: o homem, alcoólatra, na luta desigual contra a depressão; já a mãe, usuária de cocaína, desde a separação há 11 anos, enrabichada com gente que não presta.

Foi por ocasião do fim do casamento de Juliano e Magali, em 2002, que a vida de Mel foi tomada pelo assombro das baladas sem limites. Quando ela estava para comemorar 15 anos, com 400 convites já na gráfica para a festa de aniversário, Juliano e Magali, em crise, decidiram cancelar a festa e a vida sob o mesmo teto. Revoltada, a adolescente se afundou no mundo das amizades perigosas. Tornou-se, além de péssima aluna, a garota mais baladeira da tradicional escola da Região Centro-Sul. Por fim, depois de concluir o ensino médio em supletivo barato, Mel parou de estudar e começou a promover festas e traficar ecstasy.

No ano passado, no Aeroporto de Confins, no desembarque de vôo vindo da Inglaterra, a bela Melissa caiu em operação da Polícia Federal. Julgada, foi condenada a 5 anos em regime fechado. Ontem, dia de visita, Luiza, levou presente e seu melhor sorriso para a irmã encarcerada. Boas notícias também, trazidas de conversa que teve naquela manhã com o pai, Juliano.

– Tenho ótimas notícias...
– O que?
– Abre o presente primeiro...

Dentro da sacola, um belo vestido floral. Melissa o coloca junto ao corpo com tristeza.

– É lindo.
– Que carinha mais triste é essa? Você ainda não ouviu a boa notícia...
– Qual é?
– O pai. Tá melhor e disse que na próxima semana vem ver você. Hoje, faz 43 dias que ele não bebe.
– Que bom. Mas, diz que ele não precisa aparecer. Que eu tô bem e sei me virar sozinha.
– A boa notícia não é que ele vem aqui. A boa notícia é que ele tá melhor da depressão e tá arrumando um bom advogado pra tirar você daqui. Aí, você vai poder usar o vestido.
– Ninguém do pai vai me tirar daqui. O tio Maurício já disse que tá fazendo o que pode. E eu confio nele... tenho que confiar. Vou sair daqui sozinha. Não vai demorar... você vai ver. E tem coisa que a gente até se acostuma, Luiza. (longa pausa) E a mãe? Você teve notícia dela?
– Agora, ela só quer saber de um namorado que arranjou lá em Trancoso. Só fica na casa da praia. (pausa) Anteontem, Dona Mercedes ligou e disse pro pai que tava preocupada porque socorreu a mãe caída na rua outra vez, babando e se debatendo que nem gente doida. Eu tava na extensão e ouvi tudo.
– O pai tinha que deixar ela morrer. Só assim pra ele ficar bom.

Luiza olha profundamente os olhos bonitos da irmã. Respira e manda, na lata:

– Vou sair de casa, Mel.
– Como assim? (pausa) Você tem tudo morando com o pai...
– Quero ter a minha vida... liberdade, sabe!? Ser como você... dona do meu nariz.

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho

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