Vincent - Um solo de amor

segunda-feira, 18 de março de 2013

"Mim, Branca de neve. Você, Seteanão"


O negócio do Canastra era se arrumar. “Ainda chego lá!” Tá certo. Que mal há nisso? O problema é que ele era capaz de prostituir a mãe para se ajeitar. Dona Betinha bateu as botas cedo e, cheia de desgosto, não teve tempo de ver o filho tomar jeito na vida. Tragédia. Engasgou-se com a dentadura e passou dessa para melhor. Até no velório, ele tentou se aproveitar do drama.

Ao lado do caixão, fingiu dor sentida. Mas não sabia chorar. Testa franzida, olhos em águas falsas, provocadas por um tal cristal japonês (recurso muito utilizado por atores ruins para provocar choro mentiroso nas novelas). Um fiasco. Não conseguiu enganar nem os três primos cegos. O tio ricaço, dono de grande mineradora, também não caiu na encenação. “Esse salafrário é uma vergonha!”, comentou com um irmão.

Espinafrado pelos olhares da parentalha, o picareta nem ficou para o enterro no Cemitério da Paz. Caiu no mundo e foi tentar a sorte em São Paulo. Com quase 30 anos nas costas, sem profissão ou vestígio de vida útil, estava decidido a vender o corpo em clube para mulheres. Foi onde conheceu o Jonas, empresário afeminado e cheio da nota. Negociou o quadril ali mesmo e armou a barraca na cobertura do moço carente.

Para quem vivia em quartinho ordinário, perto da rodoviária, um apartamentão nos Jardins foi salto com vara. Só que a união não durou muito. O parceiro generoso chegou mais cedo em casa e flagrou o giletão infiel na cama com a vizinha. O traíra ainda tentou abafar o babado: “Não é o que você tá pensando, bebê…”. Conversa! Resultado: foi obrigado a deixar o ninho luxuoso, com uma mão na frente e a outra atrás.

Na rua da amargura, descolou bico em hotel meia-boca na região central. Boa lábia, até cantinho para dormir conseguiu com a gerente do lugar. Carregador de malas, não perdeu as esperanças. “Ainda chego lá!” Um troquinho aqui, outro ali… e ele foi juntando grana para fazer curso de teatro barato. Viu anúncio no jornal: “Venha brilhar na televisão! Você pode, você consegue! Você é capaz, você é o cara!”

A propaganda arrebatou o interesseiro. Na escola, caiu nas graças de um famoso diretor, chegado num moçoilo ambicioso. Puta-velha, o ex-galã de tevê aplicou exercício de caras e bocas: “Amor, tá muito ruim… não sabe envergar o rosto? Expressão, amor… Expressão… parece uma vaquinha de presépio…”. Depois do ensaio, jantarzinho a dois. Caíram na lama em indecência, no casão da estrela serelepe.

O canastrão, em toalha, havia acabado de acender um cigarro no varandão do duplex, no Morumbi, quando um agigantado ex-namorado da celebridade invadiu a cena. Bêbado, partiu para cima: “Te mato, bichona! Ele é meu!” Entre tapas e tabefes, numa gravata, o invasor teve o pescoço quebrado e morreu na hora. Polícia, bafáfá… cadeia. Ainda pela manhã, na cela imunda e escura, o canastra foi arranjado por companheiro fortão: “Mim, Branca de Neve. Você, Seteanão”.

Foi quando, enfim, o moço oportunista aprendeu a chorar em verdade.

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho

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