Vincent - Um solo de amor

sábado, 23 de maio de 2009

Uma rua chamada solidão (parte 5)

"Pagou a conta e levou-a cambaleante pela rua estreita. No 158F, colocou-a sob a água gelada da ducha encardida. O frio de trincar os ossos fez melhorar a bebum. Claudete teve pena de Maria quando soube da mãe morta na Zona da Mata"







Naquela madrugada fria, com a poltrona do ônibus inclinada, distante, João relembrava o jeito menina de Maria, mulher da vida. "Ponte Nova. Parada de 15 minutos", anunciou o motorista engravatado. Ele pensou não descer. Descortinou a janela para ver a cara do lugar. A lanchonete bem-cuidada foi convite para café. Aproveitou para espichar as pernas. Foi ao banheiro e jogou água no rosto. Olhou-se no espelho e alinhou o terno feito no corpo. No balcão, pediu meia dose sem açucar. O atendente, cheio de modos, ofereceu pão de queijo saído do forno. João mandou ver a boa massa com gosto e cuidado para não queimar a língua. Pouco depois, a buzina rouca anuncia hora de seguir viagem.

No São Gabriel, Claudete encontrou Maria debruçada sobre a mesa do botequim fedorento: "O que é isso, menina!?" Pagou a conta e levou-a cambaleante pela rua estreita. No 158F, colocou-a sob a água gelada da ducha encardida. O frio de trincar os ossos fez melhorar a bebum. Claudete teve pena de Maria quando soube da mãe morta na Zona da Mata. Abraçou-a como quem quer proteger rebento. No mundo da prostituição, 30 anos a mais parecem século. Claudete, a puta descolada, cinquentona carioca, sabia bem amparar as colegas. "Já fui menina perdida um dia, Maria. Sei o que é se sentir sozinha", disse, passando-lhe as costas das mãos enrugadas no rosto.

Em Ponte Nova, a poltrona vizinha, antes vazia, agora era ocupada por dona de perfume cítrico. "Dorinha! Muito prazer", apresentou-se extrovertida. João a cumprimentou com meio sorriso. "Vai para Belo Horizonte?", perguntou a mulher, puxando assunto. "Humhum", ele cortou seco. Insistente, Dorinha acabou conseguindo firmar conversa. "Pensei que fosse para Ouro Preto. Você tem cara de estudante". Contou-lhe que era cantora na noite. Falou que foi da equipe de dupla sertaneja famosa. Era dançarina. "Eu e as outras meninas ficávamos rebolando, enquanto eles cantavam dor de corno", gargalhou desinibida. "E você? Agora, fale de você. Quer chicletes?".


Na mesma cama barata, no barracão de fundos, dormiram grudados Maria, Claudete e o pequeno Julim. O banho gelado espantou o porre e abafou a tristeza no peito da puta, que dormiu sono de criança. Manhã de sol. Claudete, de pé e maquiada, saculejou a amiga: "Acorda, Maria! Hoje o dia vai ser longo. Só o trabalho para dar jeito na ressaca". Julim, banho tomado e cabelo penteado, partido de lado, tomava leite e comia pão com manteiga. Maria não quis o desjejum. "Toma, menina. Senão vai desmaiar debaixo do primeiro freguês", disse Claudete, oferecendo prato esmaltado com banana cozida.


Dorinha manteve João acordado de Ponte Nova até a rodoviária em BH. Ele não disse muito. Falou apenas que queria reencontrar amizade antiga na cidade. A mulher tanto fez que convenceu o evangélico a se hospedar em seu apartamento, no Edifício JK.


(Continua no próximo sábado)


Jefferson da Fonseca Coutinho - Vida Bandida - 23 de maio de 2009


2 comentários:

Lígia Clarine Adão disse...

Essa história, traz para perto de nós a vida. É a humanidade gritando. É o amor da puta,a dor da puta, que antes de ser puta, muito antes, é pessoa, é eu, numa outra condição, é cada um de nós em dada circustância de vida, em berço de vida bandida. Vlaeu Jefferson!

uai, mundo? disse...

Eu estou gostando muito dessa contundência... Aguardo ansioso.