Fantástico - Vai fazer o quê?

segunda-feira, 11 de maio de 2009

A quinta parede de Lenise Pinheiro


Jefferson da Fonseca

Não só aos amantes das artes visuais, mas também ao leitor que aprecia bons textos em imagens, Fotografia de palco, de Lenise Pinheiro, tem tudo para agradar. O livro da iluminadora e fotógrafa paulista, de 48 anos, reúne 571 registros que compõem parte importante da trajetória do teatro nacional. São cenas de espetáculos, bastidores, ensaios de atores, escritores e diretores dos mais respeitados do Brasil, organizados em seis capítulos: "camarim"; "ensaios pessoais"; "figurinos", "cenários"; "iluminação" e "cenas". A obra, recém-lançada, em seu conjunto, é uma espécie de quinta parede, que se sobrepõe à linha imaginária que separa o espectador do espetáculo.

Produzido em parceria pela Editora Senac São Paulo e Sesc Edições, Fotografia de palco documenta 25 anos do olhar de apuro e arte de Lenise. Parceira de realizadores como, Zé Celso Matinez Corrêa, Antunes Filho, Gerald Thomas e Daniela Thomas, a artista diz que a paixão pela fotografia veio cedo, ainda na infância, para valorizar os trabalhos de escola. "Talvez até para ajudar a superar uma certa timidez", revela. Contenção ainda percebida, em entrevista, acompanhada por conferência, pela assessora de imprensa. Lenise respondeu sobre sua obra, sem voltas ou rodeios, com prazer e orgulho. É de conversa comedida, comum aos que falam com o olhar.

Fotografia de palco fala po si. São 456 páginas de diálogo raro. Um espetáculo gráfico organizado e coordenado pela própria autora. É a celebração do instante, eternizado pelas lentes de Lenise. Em foco (ou fora dele), mestres na arte de dar vida a boas histórias. Para citar apenas alguns, imortalizados nas folhas de papel encorpado estão, Raul Cortez, Kazuo Ohno, Paulo Autran, Marco Nanini, Tonico Perreira, Pina Baush, Christiane Torloni, Glória Menezes, Amir Haddad, Diogo Vilela, Fernanda Montenegro, Fernanda Torres, Antônio Abujamra, Renato Borghi, Elias Andreatto, Ney Latorraca, Vera Holtz, Giulia Gam, Maria Della Costa, Maitê Proença, Irene Ravache, Paulo José, Walderez de Barros, Bete Coelho, Ariano Suassuna, Antônio Nóbrega, Cleide Yáconis, Lélia Abramo, Hilda Hilst, Luís Melo, Maria Padilha, Domingos de Oliveira e Laura Cardoso.

Não é preciso fazer andar muitas folhas para perceber a dedicação, o respeito e os cuidados de Lenise com o teatro e tudo o que nele contém. Como espectro, no esquadrinhar de bastidores, a fotógrafa demonstra absoluta intimidade com cada um de seus alvos, objetos móveis, vivos, personificados. Cenários, equipamentos e figurinos. Invisível e silenciosa, "rata de teatro" (como a define a atriz Bete Coelho), sempre em busca do ângulo menos óbvio. Longe do lugar-comum, ela captura mínimos detalhes e, até, os inimagináveis. Por exemplo, a bela fotografia de Christiane Torloni, em Ham-let, de 1994, páginas 18 e 19, onde Lenise assina homenagem em letras vazadas: "Atores e atrizes: os magos da minha profissão". Fascinantes também os registros selecionados no capítulo "Iluminação". Luzes e sombras, em dança de contrastes, parecem provocar com galhardia o leitor-espectador.

Talento de técnica, razão e sensibilidade, Lenise, hoje especialista em iluminação teatral, já passou pela arquitetura. Reconhece no estudo das formas ponto de partida fundamental para seu mergulho profissional na fotografia: "Foi muito importante para ajudar a direcionar um interesse particular pela imagem". Conta também que a convivência com o diretor Zé Celso Martinez, com quem trabalha desde o início dos anos 1990, lhe trouxe ainda mais intimidade com o fazer teatral. No livro, cúmplice, o encenador comparece: "Esta Santeira é do corpo sem órgãos. Em movimento permanente de transformação da Vida do Teatro, Mar de São Paulo (…) O coração do Teatro bate disposto a uma nova grandeza", escreve e assina a página 300.

Respeitada e com trânsito livre entre grandes nomes da cena nacional, Lenise Pinheiro, inspirada no fotógrafo alemão Fredi Kleemann (1927-1974), que imortalizou o Teatro Brasileiro de Comédia (TBC), derruba o mito de que o teatro, arte viva, é o momento. De que acabou, se foi, ficou para trás em alguma esquina dobrada pelo tempo. Na memória apenas da platéia. O olhar da artista, em Fotografia de palco, perpetua a realidade antiga. O instante, capturado por ela, ganha corpo e expressão, fôlego de infinito.

Fotografia de palco
De Lenise Pinheiro
Editora: Senac São Paulo e Sesc Edições
456 páginas

Nenhum comentário: