Vincent - Um solo de amor

sábado, 20 de junho de 2009

Uma rua chamada solidão (9)

"Livra-me das tragédias, tome conta dos meus passos e ilumine o meu caminho. Proteção aos que amo e aos que amam os que amo..."




No IML, o cadáver da assassinada, perfurado a faca, aguardava identificação. Documentos falsos, fulana não deixou amigos ou parentes para reclamar o corpo. Apenas uma pista: Sininha, puta foragida, ex-ocupante do quarto de Maria na Rua Guaicurus. O detetive Carvalini, na delegacia, teve particular com o chefe de Polícia. Disse ao delegado que estava certo da inocência de Maria. Bueiros, num péssimo dia, esbravejou:


– Toda puta tem culpa no cartório, Carvalini!
– O senhor sabe que isso não é bem assim.
– Não é assim os cacarecos! Ela tremeu? Tremeu é porque está escondendo alguma coisa. Me traz a ficha dela.
– Ela não tem ficha, doutor.
– Como não tem ficha? Você não fichou a moça?
– O senhor me desculpe, mas ela apenas alugou o quarto.
– Então, por que você a trouxe aqui?
– Foi o que me pareceu certo no momento.
– Vocês, garotos, deveriam trabalhar na BHTrans tocando lambreta.


Enquanto isso, vigiados pelo cachorrão, Maria, Claudete e Bigode tomavam chá de cadeira.


João, de mãos para o céu, orava em templo suntuoso na Avenida Olegário Maciel. "Livra-me das tragédias, tome conta dos meus passos e ilumine o meu caminho. Proteção aos que amo e aos que amam os que amo, ó pai amado...", pediu. Casa lotada, não deu muita conversa aos irmãos e missionários do lugar, deixou nota de R$ 50, apenas. Entrou em táxi perto de shopping luxuoso, respirou fundo e decidiu se abrir com o motorista:


– Amigo, o senhor conhece bem a cidade?
– Nascido, crescido e vivido nela. Tô na praça desde o fusca amarelo, meu filho. Pra onde você quer ir?
– Não sei bem. É que... estou procurando uma amiga. Ela é... prostituta.
– Pera lá. Foi o Dentinho quem mandou você me procurar?
– Dentinho? Não conheço nenhum Dentinho, meu senhor.
– Como é que você me achou?
– Como assim? O seu carro estava parado, eu entrei. Só isso.
– Pode falar quem, garoto. Eu garanto o sigilo. Comigo é papo reto.


Na quitinete do JK, a cantora Dorinha preparava o novo repertório para show em bar dançante. Raul, o companheiro schnauzer, desde que João saiu, não arredou as patas da porta. Carinha de tristeza, gemidos surdos, parecia ouvir o violino da tragédia.



(Continua no próximo sábado)



Jefferson da Fonseca Coutinho - Vida Bandida - 20 de junho de 2009

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