Vincent - Um solo de amor

sábado, 13 de junho de 2009

Uma rua chamada solidão (8)

"Não se soube o porquê, durão em tudo o que é caso, o policial do Departamento de Crimes contra a Vida foi delicado naquela manhã. Parecia tocado pelo drama percebido na alma da jovem puta da Zona da Mata"




Na Guaicurus, no estabelecimento barato, enquanto Claudete, em lingerie comedida, porta aberta, fazia palavra cruzada à espera da freguesia, o agente Carvalini, acompanhado por seu assistente Leomar, interrogava Maria: "No prédio ao lado, disseram que a senhora conhecia a fulana assassinada. Amigas ou colegas na vida?" Segura, a mulher contou que havia chegado recentemente do Rio de Janeiro e que conhecia apenas Claudete, amiga de tempos passados. Não demorou para que o Bigode, administrador do hotel, entrasse no assunto: "A moça chegou ontem de manhã, saiu com a carioca e voltou não tem meia hora, detetive. Posso garantir que, aqui, nem para o café ela fez". Carvalini tinha a informação de que naquele quarto que dava para a rua trabalhava a melhor amiga da morta. "Com licença", disse o agente ao entrar na locação.

Claudete pressentiu a situação de Maria e decidiu ver como ela estava. "Mas o que é isso, Bigode?", quis saber ao cruzar o beco e ver os policiais vasculhando o quarto. "Carvalini, olha isso!", disse Leomar, também conhecido como "cachorro", pelo faro apurado para provas em suas assistências. Maria não soube explicar o que era aquela bolsa preta de náilon, com joias e R$ 20 mil em dinheiro, malocada em fundo falso da cama de alvenaria. "Isso não é dela, cara. Tenho certeza", defendeu Claudete, espantadíssima. "Não é minha. Nunca vi essa bolsa. Pelo amor de Deus, moço", mais uma vez, chorou Maria. "A senhora vai ter que me acompanhar", intimou Carvalini. "Sem algemas, cachorrão". Não se soube o porquê, durão em tudo o que é caso, o policial do Departamento de Crimes contra a Vida foi delicado naquela manhã. Parecia tocado pelo drama percebido na alma da jovem puta da Zona da Mata. Claudete e Bigode também foram no camburão para a delegacia.

Na quitinete do Edifício JK, João resistia aos encantos de Dorinha, cantora da noite. Banho tomado, terno realinhado no corpo, o jovem evangélico vindo do Espírito Santo, pronto para esquadrinhar a cidade, não sabia exatamente por onde começar a procurar Maria. A anfitriã, enrolada em toalha cor-de-rosa, voltou a oferecer auxílio: "Tem certeza de que não quer ajuda? Conheço muita gente. Belo Horizonte é um ovo, vai ver algum amigo meu conhece sua Maria". João não teve coragem de revelar detalhes de sua paixão. Não mentiu. Apenas desconversou. Gentil, Dorinha entendeu. "Faz assim: hoje, não vou sair porque preciso terminar o repertório para o show de amanhã. Você pode levar a chave. Faz uma cópia e fica com ela. Você vem para jantar?" João disse que sim. Beijou-a na testa, carinhou as barbas do schnauzer e deixou o arranha-céu de vidro. Antes de seguir rumo a puteiro qualquer, passou em igreja para falar com Deus.

No IML, o cadáver da assassinada, perfurado à faca, aguardava identificação. Documentos falsos, fulana não deixou amigos ou parentes para reclamar o corpo. Apenas uma pista: Sininha, puta foragida, ex-ocupante do quarto de Maria.

(Continua no próximo sábado)


Jefferson da Fonseca Coutinho - Vida Bandida - 13 de junho de 2009

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